terça-feira, 6 de julho de 2010

confúcio

Bem, como estou de férias e não quero perder a mão não escrevendo, vou resenhar também alguns filmes que estou assistindo nesse meu ócio criativo. E o primeiro filme que será brevemente analisado é Confúcio. Vamos à resenha!
*
Qualquer pessoa que goste de aforismos já deve ter lido pelo menos um do pensador, professor e gente boa chinês Confúcio (Kong + alguma coisa em chinês que significa professor). A obra, dirigida pela esperta Hu Mei, se passa em meados de 480 a.C. e traz no papel do mestre o ator Chow Yun-Fat (dentre outros filmes, O tigre e o dragão). Estranho, porque geralmente ele faz filmes envolvendo muita ação e violência. Dizem que o filme em que mais morre gente a bala é com ele (Fervura máxima), mais de quatrocentos!
O filme é na verdade uma biografia e conta os instantes mais importantes da vida do filósofo chinês, do momento em que atua na política, deixando de ser um mero professor, até seus momentos finais. Como bom articulador eloquente que era, colocava batatas quentes nas mãos de todos os líderes que se lhe afiguravam e esses acabavam se dobrando diante de seu aprumado e ético discurso.
O filme é recheado de várias passagens inteligentes do filósofo, ensinamentos, lições de vida todos eles de algum modo ligados à ética e civilidade.
A relação das ideias de Confúcio com as de Thomas Morus (Utopia) são perceptíveis, pois os dois vislumbravam uma sociedade em que o povo, o governo e as outras cidades pudessem manter uma profunda relação de respeito, estabilidade emocional e fuga dos instintos beligerantes humanos.
O filme é muito bonito. A fotografia é uma questão muito valorizada no recente cinema chinês e é muito raro ver algum filme daquela região que não se destaque nesse quesito. 
Quem gosta das passagens de Confúcio, da lógica racional com que pronunciava suas meditadas palavras, vai ver nesse filme que a vida do pensador não foi fácil, com várias perdas significativas, exílio por vários anos, fome, mas muita sabedoria e humildade.

terça-feira, 29 de junho de 2010

descortinando os vários véus


Sidarta, Govinda, Buda, Kamala, Kamavasmi, Vasudeva e Sidarta. Esses são os personagens, em ordem de aparição, que fazem parte ou cruzam o caminho do personagem principal de um dos mais belos romances (e um dos últimos românticos) da literatura alemã: Sidarta, de Hermann Hesse.
A obra é curta, tem pouco mais de cem páginas, um enredo simplificado, mas de profundidade imensurável. O personagem central inicia a história um jovem brâmane – a mais alta casta da estratificada sociedade indiana – que decide ir em busca de algo que lhe tape um buraco na alma. Na narrativa o leitor é colocado diante de um personagem lindo, rico em sabedoria, perspicaz em suas ideias de cunho altamente filosófico e que se sente incompleto.
Um dia, um grupo de samanas (pessoas que negam qualquer apego material e enxergam nosso mundo apenas como um mundo de ilusões e aparências. Vivem de esmolas e com o mínimo para a sobrevivência) aparece próximo de onde vive o jovem Sidarta e seu melhor amigo e seguidor, Govinda. Sidarta então decide ir ter com os ascetas no dia seguinte. Avisa ao amigo que renuncia à vida de brâmane para seguir os samanas e com eles encontrar o que lhe falta no espírito. Govinda, fiel apaixonadamente, decide acompanhá-lo. Por anos, Sidarta e Govinda aprendem o modo de vida dos samanas e entendem que o mundo é um local apenas de aparência, que o desapego total da matéria é que pode desvincular o espírito do corpo (nirvana). Sidarta então aprende o que lhe é de mais valioso: meditar, jejuar e esperar.
O personagem segue essa vida até encontrar o próprio Buda num parque doado por pessoas que agora o seguiam, onde seu amigo Govinda decide ficar. A jornada de Sidarta recomeça e, conhecendo o mundo real dos homens tolos, aprende a arte do amor com Kamala, dos negócios com Kamasvami e dos vícios. Até ter outra epifania e deixar tudo outra vez.
Ele então reencontra o balseiro Vasudeva que um dia lhe dera abrigo quando ele abandonara os samanas e o próprio Govinda. Dali em diante ele decide viver com Vasudeva, o homem que ouvia o rio e ensina-lhe isto: a ouvir o que o rio, indivisível, senhor do tempo, do passado, do futuro e do eterno presente, tem a dizer, e ali talvez tenha aprendido ou criado sua própria doutrina.
Depois de aparentemente em paz, cai em sua vida um menino, cuja mãe era Kamala, também chamado Sidarta. Kamala morre no leito da choupana de Vasudeva e Sidarta agora tem consigo um desafio: cuidar de um menino mimado, criado à boa vida e que desrespeita o primoroso pai.
O desenrolar a partir daí é outra reviravolta na vida do personagem central da obra, que após tantas descobertas e redescobertas sobre si e sobre o significado de sua existência, chega a uma conclusão sobre o que poderia ser uma doutrina de vida.
Recomendadíssimo para espíritos irrequietos e pessoas que têm sensibilidade a ser trabalhada. É impossível passar por essa leitura sem compreender a complexidade de um mero gesto de mão ou os múltiplos e infinitos significados de um olhar e de um discreto sorriso. Um mergulho dentro de si é o mínimo de ocorre após a leitura desse belo clássico.

terça-feira, 22 de junho de 2010

o símbolo perdido

      Depois do enorme sucesso de O código da Vinci, Dan Brown escreveu mais uma obra sobre mistérios, religião, investigação criminal, ciências ocultas e blá-blá-blá. O nome da obra é o do título desta resenha. 
      O enredo envolve novamente o professor simbologista de Harvard Robert Langdon numa trama daquelas tipo Identidade Bourne, só que sem a pujança da trilogia de Matt Damon. A história se passa nos EUA, mais precisamente em Washington, e em umas 20 horas mais ou menos. O livro tem quase quinhentas páginas - que poderiam reduzir-se a umas 150 - mas a leitura é fluida. Primeiro que não há muito a refletir sobre a linguagem. Ao longo do livro, é possível contar o verbo "aquiescer" umas cem vezes. Aliás, dá até perder a conta. Nos dez primeiros capítulos do livro, toda hora os personagens aquiescem. Caso você não saiba o significado disso, é o mesmo que "concordar a contragosto", "anuir", "ser condescendente". A impressão que fica é que o autor só conhece essa palavra, ou seus personagens só têm essa ação. Segundo, que a fórmula usada pelo autor lembra a das novelas brasileiras: ao final de um capítulo, um suspense. No início de outro capítulo, outro assunto que não aquele do suspense. Manjadíssimo.
      Na resenha do livro consta que Brown é tido hoje com o maior escritor policial da atualidade. O que mostra que o mundo está carente de bons escritores do gênero às vistas do grande público.
         Uma coisa aproxima demais Dan Brown de Paulo Coelho: ambos falam de misticismo, de assuntos "proibidos" (a obra em questão "revela" o mundo da francomaçonaria), ciência "apócrifa", de um modo bem cru, rude. A palavra certa é pobre. O escritor americano se atém aos fatos da narrativa dele, mas não há o vislumbramento literário, não há o desvelamento que a escrita bem arranjada pode proporcionar. O texto, assim como no Código..., é mais um grande roteiro de cinema (com direito a merchandising pra todo lado) do que um romance propriamente dito. O autor beira a infantilidade ao colocar os pensamentos dos personagens em itálico, caso não consigamos compreendê-lo... Isso sem falar nas palestras proferidas e diálogos. Parecem todos iguais, e há pelo menos duas palestras nessa obra, uma do protagonista e outra de outro personagem envolvido: Peter Solomon, um importante maçom norteamericano curador do museu Smithsonian.
         Não fosse o assunto ser interessante ("os pensamentos têm massa", by noética), a leitura é mais perdida que o símbolo; porque de literatura ali, há pouco.

novo trabalho

Todos que me conhecem sabem que sou chegado numa resenha. Acho o gênero interessante, leio muitas e, para praticar a escrita e registrar meus pensamentos sobre o que leio (e leio de tudo), vou começar - a partir de hoje - a redigir resenhas sobre os livros que ando lendo. Como vou começar hoje, não vou falar de livros que li há muito tempo, exceto quando relê-los, atividade de que gosto muito. Inclusive no momento estou relendo pela terceira vez o livro Sidarta, de Hermann Hesse. 
Mas pra início de conversa, vamos com um "besta-seller", que li porque sou curioso sobre os temas tratados no livro. O autor? Dan Brown. O livro? O símbolo perdido. Alguns devem me criticar por perder meu precioso tempo com não-literaturas; pode falar mal, tem problema não. Eu me defendo na resenha. 
Té mais tarde.

sábado, 19 de junho de 2010

não era mais um josé

Eu não vou dizer nada de novo aqui. Não haverá surpresas no meu texto de despedida a Saramago. Aliás, eu até gostaria. Gostaria de levar meus leitores a um mundo imaginado em uma jangada gigante de pedra, onde lá fosse casa dessa gente toda. Ou ao universo de um professor que encontra um outro de si na rua. E não eram clones. Queria despertar-me da caverna platônica onde me puseram quando vim para este mundo e ter a força de acordar aos demais, ainda que me chamem louco. Queria transportar quem me lê até uma ilha desconhecida, e desse, para quem se arriscasse a ir lá, o prazer utópico de um mundo humano. Acharia muito bom ser capaz de contar a história de Jesus numa visão ateia e revolucionária sem soar anticristo. Conduzir os outros pela cegueira branca, rasgando o caminho por ver tudo a frente de muita gente boa. Mas eu não posso. E a morte desse escritor tão pungente, tão tenaz só reforça o quanto ainda tenho de ler para crescer um cadinho de barro intelectualmente.
Saramago me transportou para esses lugares e situações todas. Me fez acreditar nos seus personagens. Recriou meu modo de entender a literatura. Eu faço – agora – reverências a você, mestre literário; com certeza o mundo fica mais burro agora, como bem disse o Fernando Meirelles.
*
“Saberíamos muito mais das complexidades da vida se nos aplicássemos a estudar com afinco as suas contradições em vez de perdermos tanto tempo com as identidades e as coerências, que essas têm obrigação de explicar-se por si mesmas.”
A caverna, p. 26. José Saramago


terça-feira, 15 de junho de 2010

vuvuzelando

Toda Copa é igual. Ou pelo menos começa igual. A gente torce pelo Brasil, se enche de esperança, bate no peito a mão no escudo da camisa canarinho, chora, grita, bebe, xinga, reza, canta o hino (ou parte dele). E, quando o Brasil perde, a gente fica praguejando um mês sobre o maldito técnico que não escalou aquela seleção (mistura de Corinthians com Santos), sobre os jogadores terem feito corpo mole, sobre essa copa ter sido “arranjada” (leia-se vendida), sobre esse país não ir pra frente, sobre tudo.
Embebedamo-nos de um falso patriotismo que só atinge o país nessa época e, minimamente, nas Olimpíadas. Pelo menos a gente gosta de esporte. Mas o que mais me deixa grilado nem são aquelas malditas vuvuzelas vuvuzelando durante todos os jogos e durante todo o jogo. Nem é da alegria excessiva do povo sul africano outrora vítima do apartheid, hoje vítima dos resquícios dessa política. O que mais me deixa inconformado é de a gente só acreditar na gente, representada por aquele bando de mercenários jogadores “estrangeiros” que não pisam aqui pra quase nada, nessa época festiva. O país para (e nem acho que deveria ser diferente) e assiste confiante de que dessa vez, mais uma vez, o Brasil vai pra frente. Le(ve)do (de cerveja) engano.
Quando ganhamos em 1994 ou mais recentemente em 2002, o que nos ocorreu depois foi a ressaca “temos-o-caneco-e-agora-o-que-a-gente-faz?”. Sabe cachorro que cai da mudança? É o povo depois da Copa. Ganhando ou perdendo, o brasileiro não aprenderá a valorizar o sentimento de amar o país sobre todas as coisas ou em detrimento dos outros, como já ocorre com a Argentina. Que avalanche de propagandas engraçadinhas insuflando a xenofobia é essa que tomou conta da tevê? Já não bastam as piadinhas sobre argentinos que circulam pela internet agora temos de odiá-los? Ou, no mínimo, zombar deles como se fossem seres inferiores a nós? Legal isso vindo de um povo “patriota”, porque é tudo o que um continente precisa pra crescer frente ao mundo lá fora: desunião.
A gente precisa aprender a confiar no nosso potencial pessoal, não por causa do país ou da nossa cultura tão festejada pelos gringos. Precisamos é olhar ao redor e dar as mãos, não como nação, mas como humanos. A gente pertence à mesma nação: a humanidade.
Gosto de futebol, não nego. Mas mais do que torcer pelo meu país, prefiro torcer pela festa como uma grande confraternização que une bilhares de pessoas à frente da tevê e pode servir como palco para divulgar as diferenças entre os povos como uma qualidade a ser preservada para os tempos pós-competição, não como motivo para desunião. 

domingo, 9 de maio de 2010

contodenovo

Possessiva mimética


  Eu não posso me queixar de sua devoção por mim. Ela simplesmente abandonou a vida pra me fazer de tudo. Eu me pergunto todos os minutos do dia por quê. Depois de ter abdicado de sua própria vida com o sólido argumento de que nada mais no mundo fazia sentido, apenas meu ser, meu bem-estar e meu prazer, ela fazia tudo pra mim. Naquele dia mesmo, me preparou um café da manhã espetacular, cujo outro igual só encontrei uma vez num hotel cinco estrelas onde fiquei hospedado. Ainda ministrava cursos naquela época.
 Inclusive foi numa palestra que eu a encontrei. Durante um seminário meu sobre Possessividade Múltipla Imaterial – minha tese de doutorado – dei um exemplo aleatório e deparei-me com seus olhos, de certo jeito, familiares. Até cheguei a pensar que fosse uma colega de faculdade comprovando meu brilhantismo acadêmico, agora fora das cercanias da universidade, me admirando como homem despojado e de voz boa, potente, semi-grave ou mesmo me invejando. Seja lá o que ela estivesse fazendo, no final da palestra, durante o coffe-break, ela se aproximou e me disse que me conhecia de algum lugar. Nem mesmo me elogiou ou cumprimentou. Antes mesmo de eu pensar na cantada inócua clássica que é essa pergunta de aproximação, eu concordei com ela, por ter tido a mesma impressão. Depois dos beijos quentes de duas horas depois, ficou comprovado que não nos conhecíamos de lugar nenhum, que simplesmente éramos um do outro. Ainda naquela noite dormimos juntos e eu tive certeza, como nunca na minha vida, de que ela era uma mulher muito mais que simpática. Não é bela, como se vê na televisão as modelos, mas é um tipo que os homens se interessam, olham e muitas vezes testam. Pra falar a verdade, ela é do tipo que os homens chegam com facilidade porque imaginam pelo seu físico e olhar de entrega que ela não é das mais difíceis de ganhar. Enganam-se. Ou não.
  Nos casamos há dois anos. Tivemos o melhor casamento de que eu ouvi falar. Nem histórias de fadas contam com tanta imaginação as coisas que já vivemos juntos. O nosso casamento se deu como na forma do nosso conhecimento, rápido e apaixonado. Foi um casamento de namoro curto. Era cada palavra, cada suspiro, cada besteira dita, cada fio de cabelo e pinta no corpo o mais perfeito sinal de que éramos únicos e fabricados um pro outro. Não me esqueço do olhar durante a palestra. Eu que nunca vi os olhos de ninguém. Eu que nunca havia comido ninguém nesses cursos. Eu que sempre soube que minha figura representava algo a mais para algumas mulheres, afinal, a fala é poder, o discurso é atraente e os trajes e a barba bem feita e a entonação e as brincadeiras também. Tudo isso é muito sedutor e eu sempre soube disso. Quanto mais mulheres chegavam até mim propondo algum tipo de loucura, mais eu me desvencilhei e, naquele momento, comprovava que estava sendo eficiente o meu propósito de imagem. Também quando homens vinham ter comigo, certamente era pelo mesmo motivo, a sedução que quem discursa revela. O meu assunto tratado sempre foi muito interessante, mas era um produto que eu vendia e sempre pesei pelas mulheres e homens que vinham até mim depois do curso o quanto eu estava sendo eficiente com ele. No dia em que a vi, vendi como sempre o meu produto. Inconscientemente, porém, eu já a desejei desde o momento em que seus olhos pretos perfuraram a redoma que me protege dos desarmes. Um homem veio. Falou o trivial. Duas mulheres vieram. A primeira também foi banal, falou um básico. A outra era ela. E por mais estranha que fosse aquela aproximação (as pessoas sempre vinham falar do que falei), eu cedi de imediato, como que enfeitiçado.
  Gosto de recordar dos momentos subsequentes. Foi tudo tão rápido. Eu comentei com ela o quanto parecia que os segundos demoravam a passar, parece mesmo que estávamos aproveitando tudo e que nosso casamento demorou séculos pra acontecer. E não, foram duas semanas apenas.
  Eu não podia prever o que viria a acontecer. Algo que se chama “estacionamento” pode se aplicar à vida das pessoas. Pessoas que estacionam. E quando falo delas não me refiro imediatamente às que nada fazem, só às que fazem para ficar paradas. Ao nosso lado. Minha esposa tornou-se, a cada dia, uma espécie de escrava voluntária. Parece que fui achando-a muito esquisita, meu desejo diminuía e cada dia mais seus seios pareciam murchar de tristeza. Logo eles, aqueles seios que tanto beijei, me resfoleguei, tanto me aconcheguei a eles, hoje pareciam duas maçãs enrugadas. E não que estivessem velhos, nem mesmo ela. Todos os dias alguém vinha me dizer da beleza da minha esposa, da minha mulher. Beleza que eu não via mais, ela era um tipo comum e de comum a feio e de feio a insuportável. Essa escrava que me alimentava, me lavava todas as roupas, me colocava as roupas no corpo, dessa mulher que ainda resta algum bom sentimento meu por ela, eu não a possuo mais. Ela mesma é que me possui, do jeito dela, desse jeito estranho e incomum que não me permite conhecer outras pessoas, porque sinto pena daquela coitada que vai custar a morrer. O escravo possuindo seu dono, quanta ironia.
  Algumas vezes tirar-lhe a vida passou pela minha cabeça como um fato, como algo que logo deveria ser feito. Nunca tive hombridade, coragem e lealdade a meus princípios o suficiente para executar minha vontade. Parece que ela tinha o corpo fechado. Estive duas vezes marcando encontro com assassinos profissionais que deveriam me livrar desse entojo, mas não concretizei nada, reclamei do preço como desculpa e nada fiz.
Preço nunca foi empecilho pra mim. Dinheiro eu rasgo com o dente. E ela nunca me pediu nada... eu é que tenho de oferecer coisas a ela que, humildemente, aceita com os olhos baixos e tristes, como se não merecesse. Nas festas em que devo estar acompanhado, sempre parte de mim a atitude de comprar um vestido novo, um sapato, uma bolsa... ela nunca toma essa atitude. Vejo todos os meus amigos me tecendo loas pela magnífica esposa que tenho, que todos eles queriam ter uma mulher como essa, já que estão casados com umas megeras que só os exploram e se caricaturizam com tinturas, plásticas, produtos ácidos na cara, enquanto minha “bela” esposa continua como um figo, linda, morena, humilde. Comparados aos olhos dos outros os nossos próprios filtros dos olhos ficam alterados.
  Achei por muito tempo que meus amigos a desejavam. Esse risco eu não corria, ela era minha demais pra ficar com algum de meus amigos. Ela se doava pra mim demais, era impossível que alguém rompesse aquela incorruptibilidade pela causa escolhida e defendida por ela: eu. Nunca pensei que tivesse algum dia esse poder todo, essa semelhança com um deus pra alguém. Nunca pensei, do alto da minha arrogância, que me tornaria um semideus. Nas minhas palestras eu achava que era um profissional competente, do qual todos gostavam de ir ver, de quem a maioria se enchia de motivação e perguntas a ser respondidas com o meu livro. Não muito mais do que isso, nunca achei que pudesse causar uma doença a alguém.
  Temo que minha mulher não tenha volta. Temo por sua vida. Temo que se houver uma separação, além de ter que ser à força, ela não possa sobreviver. Parece que o vínculo estabelecido por ela se transformou em elo, e elo, ainda que quebrado, mesmo que depois consertado, nunca mais é a mesma coisa, além de não ser mais confiável ainda possui um calo em si, um calo visivelmente defeituoso.
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  Como ao abrir a caixa de Pandora, vejo no fundo uma esperança: a de me redimir perante a mim mesmo ou ao de dar cabo, também eu mesmo, nessa rocha que se calcificou à minha perna e que, a cada dia, como sedimentação, aos poucos se apodera de mim inteiro. Como fui deixar as coisas chegarem até aqui? Qual meu defeito não pude perceber a tempo para evitar que essa coisa se apoderasse do meu corpo como um espírito se apodera de uma matéria viva?
  Tomei uma decisão, ela precisa de tratamento de choque. Preciso fazer com que ela se anule, definitivamente. E só há um jeito de atingi-la. Atingindo-me. Vou cortar meu braço com um facão. É isso, aqui no antebraço, no meio, vários golpes até rachar o osso e partir a pele, os tendões, os músculos, as veias, as artérias. Depois, quando ela chegar aos meus gritos, estará terrificada com a cena na cozinha. Eu, ajoelhado, de calça preta de linho, sapato preto italiano, camisa branca arregaçada até os cotovelos, a gravata vermelha de listras jogada para trás do pescoço, o facão no chão ao lado do meu corpo, meu antebraço destroçado na mão direita, erguido como um troféu de uma maratona, todo o sangue empoçando a mim e o meu redor e minha cara contorcida pela dor, pelo prazer da vitória, pelo desgaste da luta, o olhar voltado para ela em regozijo e pena e o desmaio depois da cena.
  Agora estou no hospital. Ela deve ter tomado as providências. Logo vai vir aqui e me encher de perguntas sofridas, para eu explicar o que aconteceu, por que fiz isso ou se foi alguém. Vou dizer: foi você. Vou te denunciar à polícia, vou dizer. Daqui a pouco aparecem enfermeiras para aplicarem remédios no soro que espeta pela agulha o meu braço bom. Medicamentos para aliviar a dor, diz a enfermeira. Deixa a dor, eu digo, ela comprova que eu tenho controle sobre minha vida. Um homem de branco se aproxima. A cirurgia foi um sucesso e conseguimos fechar bem o ferimento. Alguns procedimentos de cirurgia plástica reparadora, talvez algum enxerto para segurar melhor a prótese futura serão necessários daqui a algum tempo, disse o cirurgião alegremente, mas sem tirar os olhos do prontuário. Aliás, as duas cirurgias foram um sucesso, ele emendou. Eu não ia dizer nada, mas fiquei curioso sobre que outra cirurgia eu teria feito. Sua não, da sua esposa, disse ele. O corte no braço dela fora ainda pior do que o do senhor, ela estava tomada de adrenalina então cortou-o com mais rapidez, estraçalhando-o com mais força, e não desmaiou, ligou para a emergência falando alto, mas sem chorar. Eu recomendei o psiquiatra para o senhor e para ela, o dr. Mourão deve chegar daqui a pouco para fazer uma avaliação com o senhor, tudo bem? depois com ela. A gente tem que cuidar da cabeça também, não é? perguntou o médico num tom infantil, analisando o curativo e sussurrando para a enfermeira sobre o esparadrapo mal pregado. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Quer dizer então que minha mulher havia também ela cortado o próprio braço?
- Oi amor, disse minha mulher meiga quando fui levado à enfermaria para ficar ao seu lado. O mesmo braço, o curativo no mesmo lugar.
  Quantas partes de mim terei de arrancar para arrancá-la de uma vez de mim?

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Hipercompartilhamento


Hiperconcorrência, palavrinha surgida nos últimos tempos para amplificar aquilo que já é um problema em si: a concorrência. O mundo capitalista admite que a concorrência é importante para o crescimento econômico do mundo, pois é ela que fornece opções para o consumidor comprar melhor. É ela também que faz os animais sobreviverem na natureza, quando derrotam os demais numa luta evolucionista. Ainda a vemos no esporte, quando os atletas superam suas dificuldades nas provas em que têm de derrotar outros atletas para ser considerados vencedores. Somos concorrentes por natureza, pelo visto.

Tenho notado, também, que a concorrência tem sido estimulada na escola. Hiperestimulada, quer dizer. É comum ouvirmos de pais, educadores, alunos e não alunos que é preciso superar a concorrência para conseguir um lugar ao sol. A perspectiva deixou de ser “garantir a minha vaga” para “derrotar os outros para me garantir”, como se estivéssemos na selva e só houvesse uma presa para nós e dezenas de outras feras. Acontece que não somos feras. E não estamos na selva – ou não deveríamos estar. Muitos professores têm usado este argumento com seus alunos: “enquanto você conversa, enquanto você está no cinema, enquanto você se diverte, seu concorrente está estudando para tomar sua vaga!”.

Devemos considerar ainda o sistema desleal de educação no Brasil, que privilegia aqueles que melhor acumulam um sem-fim de conteúdo (que vai além, muito além do necessário para um menino de dezesseis anos) em detrimento do pensamento individual próprio. O discurso de “ensino massificado” está mais que repisado, nem quero ater-me a ele. Mas parece que quanto mais reflexões fazemos sobre a educação brasileira, quanto mais discutimos o tema nas faculdades de licenciatura, quanto mais entendemos o que deve ser feito, mais o “mundo real” das escolas particulares e o distorcido vestibular nos conduzem ao massacre intelectualoide. Estamos enfileirando nossos alunos no moedor de carne da hiperconcorrência. Ela não só estimula os meninos a estudar mais, a ter maior responsabilidade sobre suas vidas, como os desumaniza na medida em que prega que não é simplesmente uma disputa, é bem além disso: vamos brincar de super-homens!

É incrível como o discurso de “sobreviva ao massacre” apregoado pelas grandes escolas elitizadas do país, em especial as goianienses, é repassado às menores escolas até chegar no mais rústico piso do que se pode chamar de educação: as escolas públicas das periferias das periferias das periferias. De um lado, lousa eletrônica, ensino bilíngue e acompanhamento psicológico. Doutro, meninos sentados em cadeiras improvisadas, em salas de ensino fundamental e médio em turnos diferentes, de alpargatas rasgadas e pés imundos do universo sem asfalto. E todos querendo salvar vidas num futuro próximo.

A minha maior preocupação nem é tanto com o futuro desses jovens, porque uma hora eles acabam percebendo que o mundo real não é bem aquele apregoado no terceiro ano ou no cursinho. É pior, e grande parte da culpa de ele ser assim é que um dia alguém falou que era certo concorrer, mesmo que se usasse a cabeça dos outros como degraus para “subir na vida”. A minha maior preocupação é com o que se diz hoje na sala de aula como sendo o certo. Com a imagem que é passada adiante como sendo a verdadeira: a de que o mundo é injusto e “salve-se quem puder”. O mundo é injusto, no entanto, como dizia Drummond, vamos de mãos dadas, que é melhor, que é mais fácil.

A ideia estonteante (para não dizer estúpida) de ter mais de quarenta aulas por semana em Goiânia passa aos olhos dos pais e dos donos de escola como a situação mais normal que possa existir. “Quem quiser passar no vestibular bem, tem que estudar mais que os outros”. E não é “mais” de qualidade, de estudar melhor, é “mais” de quantidade. 40 aulas por semana? Isso é um disparate! Por que os meninos noutras bem sucedidas escolas do país têm no máximo 30 aulas por semana e passam tão bem no vestibular como nossos meninos? O problema é só o gargalo do vestibular? Garanto que não. Esse assunto rende um outro artigo.

Eu quero, então, propor que não enxerguemos mais os outros como concorrentes, mas nós mesmos, as provas que fazemos, o mundo injusto... eles são nossos concorrentes! Pessoas não concorrem, pessoas dignas correm. E juntas. Proponho também que não vejamos aquele cara da nossa área, do nosso curso, como alguém que vai tomar nossa vaga; no entanto alguém que dividirá um espaço conosco num futuro próximo.

Meu texto é utópico, sei disso desde o título. Sei disso desde o primeiro insight que tive sobre o tema para escrevê-lo. E quem foi que disse que não há espaço para a utopia no mundo atual? Quem determinou a regra de que não podemos mais visar o impossível, o inalcançável, o inatingível, o que faz da gente mais do que meros ratos de laboratório correndo em suas esteiras circulares e gerando energia para quem os faz de cobaias? Como estudantes, como educadores, como pais nós podemos orientar humanos a serem humanos não-hiperconcorrentes, mas tão somente humanos em contato direto com a incerteza que faz a gente ser melhor do que podíamos ser um dia. Porque só a certeza não garante nosso crescimento. Que tal pensarmos no hipercompartilhamento?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

evolução?



Assinala a mais recente teoria da evolução de que não sobrevive o mais forte. Não é ele que seleciona quem vai sobreviver, é o mais fraco que determina isso. Se um guepardo persegue incansavelmente dois cervídeos, o que não conseguir escapar é que garante a sobrevivência do outro. Isso é interessante, porque muda nossa perspectiva do que é ser evoluído e nos joga diretamente no cerne da nossa própria noção de desenvolvimento e evolução.
Ora, a ideia de que os mamíferos são os animais mais desenvolvidos do planeta, ou de que o ser humano é o ser mais evoluído está ultrapassada. Ela não condiz com a realidade de sobrevivência de todos os seres que hoje habitam a Terra. Pode-se dizer, de fato, que o ser humano é apenas mais um animal da natureza. E um animal dos mais estúpidos, diga-se.
A nossa presunção em nos achar superiores aos outros animais por causa da nossa "inteligência" e "raciocínio" extremamente "desenvolvidos" nos leva a crer, concomitantemente, que tudo podemos porque estamos no topo da evolução. Na realidade, somos bem piores do que muitas bactérias, estamos aquém de seres muito mais simples do que nós e temos um senso de justiça distante da lógica mecânica do nosso planeta. Somos seres tão insípidos, que tivemos de inventar uma justiça nossa, porque a da natureza não nos serve, porque fere a nossa inteligência, porque segue as leis naturais e tira o nosso da reta na hora de fechar a conta com o meio ambiente.
Em outras palavras, subestimamos a terra que nos fornece o alimento, desprezamos as árvores que nos proveem a limpeza do nosso ar carregado do nosso CO2, estraçalhamos a vida dos mares e minamos a corrente dos rios com nossos metais para garantir o luxo de madames que desconhecem o que vem a ser extração de recursos não-renováveis. Em outras palavras, somos a imundície de nosso sistema solar e, mesmo com todos os avisos de que o fim está próximo, por religiosos, cientistas, ateus, profetas e gente comum que nunca viu tamanhos desastres naturais, nós continuamos apostando na Mega Sena pra pegar essa bolada e poder consumir à vontade, sem dar qualquer retorno ao pó de onde viemos ou ao pó aonde retornaremos cada vez mais em breve.
Enquanto a nossa noção de evolução estiver atrelada à mera capacidade de utilizar instrumentos tecnológicos que nos propicie uma vida mais fácil, enquanto consideramos que prosperidade é acumular bens e sinônimo de ficar rico, enquanto acharmos que o mundo que inventamos pra nós vai sobreviver ao mundo que estamos destruindo, nós nunca poderemos nos chamar de evoluídos, pois esse processo já tem um nome: processamento de lixo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

(s)angra

É lamentável a perda de tanta gente em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro . Em Minas também. Em São Paulo, idem. Vejo a mídia fazendo o seu papel ao informar a população. Vejo as pessoas comentando nas ruas, entre os parentes, entre os amigos. Até crianças eu vi lamentando as mortes causadas pelos deslizamentos (ou escorregamentos, como já vi chamarem).
Fico me perguntando, porém, por que todo ano é a mesma coisa. A resposta não tarda. Aliás, as respostas. É que fazer casa em local proibido é prenúncio de desgraça. Não respeitar os limites da natureza, é pedir pra ela revidar. E, como diz um ditado, "Deus perdoa, o homem, às vezes. A natureza, não".
Somos vítimas da nossa própria falta de bom senso. Nem ouso falar em consciência, é pedir demais pra uma população mesquinha que revolve o sonho nos moldes norte-americanos no Brasil.
Eu procuro fazer as coisas certas. Tem um monte de coisa a mais que eu poderia fazer, e não faço, sei disso. Outro dia fiz um teste da WWF via twitter do GreenPeace para saber meu impacto ecológico no Planeta. Achei que, mesmo eu contribuindo com algumas coisas (como evitar o uso de sacolas plásticas não recicláveis, separar o lixo em casa, não jogar lixo na rua, procurar saber a origem dos alimentos que consumo, evitar desperdício, preservar a energia e a água, etc.), o meu resultado foi frustrante: se todos vivessem ao meu ritmo, seriam necessários três planetas Terra. Ou seja, eu consumo, hoje, quase o mesmo que um mexicano! E olha que eles consomem muito por causa da influência direta dos EUA.
Agora, se nossas atitudes aqui determinam o nosso futuro neste planeta, deveríamos fazer uma revisão agressiva da nossa conduta. Passar a consumir mais orgânicos, andar mais a pé, ler mais e ver menos televisão, curtir de fato a natureza, não olhá-la como algo exótico ou extraordinário.
Comecei a fazer caminhada e, no parque onde caminho, há um pequeno pedaço de mata bem fechada. Do lado dela, fica lá um coelhão gigante, vivendo de boa na natureza. Pois no segundo dia de caminhada tinha um desgraçado querendo pegar o coelho. Como eu torci pra ele pisar numa cerca elétrica, pro coelho dar uma dentada no nariz dele, pra ele cair num buraco oculto e ficar entalado.
Nós somos responsáveis pelas escolhas que fazemos. E elas têm apontado para um buraco negro pra onde toda essa massa vai. E, se não voltar, não podemos reclamar da natureza. Ela só cobra o espaço que nós insistimos em afirmar que é nosso.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

resoluções para 2010

Se engana se espera que vou fazer uma lista aqui das coisas que deixei de fazer em 2009 e que pretendo fazer em 2010. Eu precisava de um título, só isso.
Na verdade, esse texto é uma obrigação minha comigo mesmo para que eu retome meu projeto de escritas aleatórias. O problema é que eu conheci o twitter e passei a twittar todo dia, praticamente, restando pouco tempo pra eu gastar aqui. O que é um erro, na verdade, porque aqui estão os textos. Lá no meu twitter estão as pílulas de redação que eu escrevo na maior das boas intenções pra ajudar meus alunos. Lá eu tenho um trabalhão pra escrever pouco, mas é um trabalho gostoso, porque o exercício da concisão é sempre um ótimo exercício, pra gente não falar besteira demais. Quanto menos falamos, menos besteira sai, isso é óbvio. Mas só tem jeito de diminuir as besteiras que falamos se exercitarmos o texto, o que inclui lê-lo e escrevê-lo. Eis o paradoxo.
Estava com saudade disso aqui, tenho que confessar. Fui ver minha última postagem e ela datava das minhas últimas férias. Espero que isso não se repita em julho de 2010 (já que se repete agora), quero voltar a escrever minhas crônicas e resenhas.
Por falar em resenha, eu ando lendo muita resenha. Meu amigo Robert me deu de aniversário/natal/amigo secreto/presente pro resto da vida, o livro 1001 discos pra ouvir antes de morrer. Cara, que livro massa. São 1001 resenhas elogiosas! E a resenha é um texto muito engraçado, porque basicamente é jornalístico. E, como tal, mesmo com o espaço pra crítica que abre, o texto quase sempre é jornalesco. Mas a resenha boa, aquela resenha que te empolga, mostra o crítico no começo do texto falando algumas obviedades sobre o resenhado e depois, lá pelo meio do segundo parágrafo, o cara não consegue segurar mais e começa a traçar os elogios mais legais, as palavras mais adequadas, os exageros mais "incometíveis" e aí fica tudo lindo. Regozijo total.
Na verdade, desde julho eu ando lendo um, dois livros de cada vez. Não tenho pressa. Demoro um tempão lendo certos livros. Sobretudo romances. To lendo tb o 1984, do George Orwell, que eu comecei a ler há mais de ano e parei porque perdi ritmo de leitura. Nunca mais eu quero que isso aconteça por causa de tempo. E aí, sabe onde eu tenho lido? No banheiro. Acredite, era um tempo perdido pra mim, mas agora eu tenho o que fazer enquanto espero acabar o que eu faço lá.
Outro lugar fantástico pra se ler é em fila de banco. Que desperdício de vida é ficar em pé, às vezes mais de hora, esperando pra dar seu dinheiro pra quem não merece. E sala de espera de consultório médico? Outro lugar fantástico pra ler tb, porque médico geralmente não respeita NOSSOS horários. E tempo àtoa deve ser dedicado à leitura. E esse àtoa é adjetivo, então é junto mesmo. Estranho, né?
Cheguei naquele ponto do texto que eu não sei mais o que escrever. Acho que isso é besteira. Deixa eu parar por aqui pra não escrever mais dela.
Bom vintedez pra vc!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

kokakola


Coca-cola, certo? Certo, colou tanto que hoje, se a empresa desaparecesse do mapa, metade do mundo econômico estaria fudido. A multinacional chegou a tal ponto de magnitude, que no mundo inteiro, onde há Coca-cola, sua marca é maior que deus.
Exagero? Você imagine a cena: quatro pessoas sentadas num congresso ecumênico mundial sobre religiões e religiosidade, vindas dos quatro cantos do planeta, sentadas numa lanchonete e discutindo sobre suas religiões. Provavelmente, partindo do pressuposto de que foram pra um congresso ecumênico, respeitariam a religião do outro, mas sempre com aquela certeza interior silenciosa: "o meu deus é melhor que o deles, sem dúvida". Mas veja que ironia, todos eles poderiam estar tomando o refrigerante preto sem que houvesse um segundo de crítica sobre o outro. Simplesmente porque está enraizado em nossa cultura (ouso dizer em nosso inconsciente coletivo) que é apenas um refrigerante. "O que há de mal nisso?"
Bem, eu não sou um expert em problemas mundiais causados por multinacionais. Nem economista pra dizer bem ou mal de uma empresa que, por ser do tamanho que é, deve causar danos irreparáveis a pequenos ou menores empresários ou mesmo a enconomias locais. Tampouco ecologista pra alertar sobre os riscos que empresas dessa monta causam ao planeta, com seu desmatamento, sua retirada de bens não-renováveis da natureza, a poluição causada pelo transporte de seus produtos, a promoção de uma imagem socialmente legal, que, quando se analisada friamente, perceber-se-á cruel e criminosa.
Eu apenas não tomo Coca-cola. Quando parei, há catorze anos, ainda adolescente, eu ouvi que a Coca patrocinava o apartheid na África do Sul. Indignado, prometi a mim mesmo que não poria mais o refrigerante na boca. Nem sei se era verdade. Talvez fosse lenda punk. Bem, o certo é que desde então, a promessa vem sendo cumprida. No entanto, ingênuo que era, tomava Sprite, Fanta, ia a shows (vou ainda) patrocinados por ela, tomei suco, água, cerveja (ainda tomo) distribuída ou que faz parte do conglomerado chamado Coca-cola. Sei o que deve estar pensando: inútil não tomar Coca. É verdade, acho que é inútil.
Porém, acredite-me, existe um prazer asceta em não fazer algo que todos consideram prazeroso e inofensivo. Não tomar Coca-cola pra mim não é difícil hoje. O hábito fez com que eu me esquecesse qual é o gosto do refrigerante. Difícil é as pessoas entenderem isso. "Nossa, como é que você consegue?", "Ta maluco?", "Não dou conta de viver sem" etc. Cansei de ouvir isso nesses últimos catorze anos. E, quer saber, dou a mínima. Não sinto falta, acho que colaborar com a promoção da marca é aceitar tudo o que o sistema impõe. Não vou bancar aqui o anarquista que levanta bandeira. Nem tanto ao mar, nem tanto à praia. Consumo produtos "errados" também, colaboro com um monte de coisa torta que eu nem tenho ideia (como 99% dos consumidores mundiais), mas uma coisa é preciso reconhecer: dessa religião eu não faço parte.
Agora está na moda não só o refrigerante. Está na moda fantasiar-se de Coca-cola. Tenho visto uma multidão de mulheres usando calças (coca-)coladas como se o conteúdo delas fosse o próprio refrigerante. O que é pior? Essas mulheres pagam uma fortuna numa calça dessas pra fazer propaganda pra empresa. Sim, porque andar com a logo da Coca na bunda é fazer propaganda do "lado Coca-cola da vida".
Comecei falando de deus, terminarei. No Brasil, mais especificamente no Maranhão, há um refrigerante cor-de-rosa chamado Jesus. Nem é preciso dizer que Jesus é um sucesso, vivemos num país cristão que assimila bem a imagem divina associada a objetos que possam ser consumidos (isso deve incluir a palavra nas igrejas também, já que dinheiro lá é importante para a manutenção do fiel [ou do pastor, essa frase ficou ambígua!]). Sabe de uma metáfora? A Coca comprou Jesus.
Fim do desabafo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

conversa


Galera, finalmente saiu do papel e do computador e agora está nas camisetas! Sim, a Conversa de Boteco Camisetas finalmente está pronta! Agora estou trampando também com camisetas personalizadas.
O papo é o seguinte: adoro camisetas. Todos perguntavam onde eu compro minhas camisetas. Muitas eu compro em qualquer lugar, a estampa é o diferencial e isso eu mando fazer. Aí sempre querem ter uma camiseta única ou igual a minha ou parecida ou totalmente diferente ou...
Pois bem, se você queria uma camiseta e não tinha como fazê-la, agora tem grandes chances de isso acontecer comigo, aqui, na Conversa de Boteco.
A princípio o lance é bem informal, estou recebendo dezenas de encomendas, mas ainda não tenho uma estrutura física ou algo do tipo. Entretanto, não é preciso quando vc tem uma ideia legal na cabeça e me passa pra fazer a camiseta pra você. E é simples, escreve pra conversadb@gmail.com com uma ideia, um desenho ou uma dúvida que eu te respondo.
As camisetas estão lindas. Confira no perfil do Conversa de Boteco no Orkut. Digita lá, "Conversa de Boteco", ehehheheh, o amarelinho é nóis.
Abraços a todos que me visitam!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

redação


Todos sabem que redação é minha vida. Todos sabem que sem escrever não fico e sem falar disso não vivo. Dar aula pra mim é bem mais que um ganha-pão, é profissão de fé, é amor à causa, é crer que a escrita pode mudar o mundo, porque é lendo, informando-se e, sobretudo, pondo pra fora o que somos em palavras e textos, é que atingimos nossas metas. Das incipientes às derradeiras. Também não é segredo pra ninguém que, ao entrar numa sala de aula, tento colocar no quadro, na voz e no amor que tenho pela escrita tudo o que aprendi. Tudo mesmo. Já me vi inúmeras vezes tratando de assuntos e textos com alunos que nem na Universidade eu vi. Sou topetudo e bato de frente com o que não concordo nos livros. Exponho isso aos alunos e deixo o peito aberto pra aprender com os erros e críticas. Inclino-me a uma boa retórica que se me apresenta, mas curvo-me diante de um bom argumento. E a Universidade Federal de Goiás sempre foi um bom argumento pra mim, mesmo quando vacilou em seus vestibulares (o manifesto no lugar de uma carta aberta, em 2008, é só um exemplo). Sempre segui a teoria dos gêneros discursivos adotados pela instituição (que os adota desde 2003) e faço questão de frisar que, se hoje ela abandonasse esse estilo de prova e retomasse o da tipologia (dissertação e narração), eu continuaria trabalhando o gênero, porque acredito que é nele que realizamos o mundo real, nas revistas, nos jornais, nas pequenas publicações, na televisão, na escola... enfim, na vida. E até hoje, desde 2003, não houve um ano em que não fui surpreendido pela prova, seja pelo tema, seja pelas modalidades de texto exigidas. Surpresas, na maior parte das vezes, boas. Contudo, a surpresa que tive hoje foi desagradável, teve gosto amargo e de proposta errada. O tema foi indiscutivelmente interessante ("O papel da arte na vida cotidiana: utilitário e/ou estético?"). Inovador, instigante, necessário, útil, enfim, não tenho do que falar dele, excelente, como inúmeros. Porém, no que concerne aos gêneros, a impressão de que a UFG quer "aparecer" pro mundo acadêmico foi patente. A primeira pergunta que me veio à mente foi: por que gêneros totalmente inusuais no lugar dos presentes em nosso cotidiano? Pedir aos candidatos Biografia? Discurso de formatura? Da carta eu nem falo, porque foi o único certo a meu ver. Agora os dois primeiros... Quando falo em gênero discursivo, espero que meus alunos entendam as várias manifestações dos textos frente à realidade, ao cotidiano, ao mundo. E não posso deixar de falar que o meu norte, e o de outros tantos professores de produção textual da cidade, é exatamente essa prova da UFG. É ela que nos dá a deixa do que trabalhar em sala como sendo o possível e o real. E se já é impossível trabalhar todos os gêneros em todo o ensino médio (considerando que hoje o ensino médio tem dois anos e um pré-vestibular no terceiro), quiçá trabalhar aqueles totalmente improváveis. Não estou aqui choramingando por não ter "acertado" os gêneros exigidos. Longe disso. Aplaudi a instituição quando editorial (2005), artigo de divulgação científica (2006) e carta aberta (2006) foram pedidos, mesmo eu não os tendo trabalhado em sala. A minha crítica é que se o norte que deveríamos tomar em sala é o de que "tudo é possível de ser pedido", daqui a pouco os referenciais serão poucos pra sustentar na cabeça desses jovens, que ingressam na universidade sem saber por que escrever é necessário, a importância de se estudar os gêneros e não só os tipos de texto. Temo ter que iniciar o próximo semestre trabalhando em sala horóscopo, receita médica e bilhete escolar, na esperança de meus alunos entenderem o que é o gênero pra UFG. Sei que gênero é aberto, e tudo é possível e híbrido. Mas precisamos de um mínimo de limite, um mínimo de coerência. Se o objetivo da banca é fazer-nos refletir com os alunos sobre as condições do gênero discursivo no mundo, ótimo, então que ela promova simpósios e minicursos, como os que fazia a minha amiga Mary Fátima Lacerda, para que a comunidade alcance o que está na cabeça e no propósito dos avaliadores, porque, sinceramente, nem todo gênero ajuda o outro. Assim como a UFG nos deu a mão agora, nesta prova, pra nos empurrar. Os examinadores e responsáveis por esta prova (e por outras de outros anos) certamente não se colocam no nosso lugar. Se o fizessem, talvez pensassem que um mínimo de relação com o verdadeiro cotidiano a prova deveria pedir. Biografia é texto que a maioria dos candidatos nunca leu. Ou mesmo produziu. Discurso de formatura, talvez o primeiro com o qual eles tenham contato será no final deste ano, quando terminarem o terceiro ano e um infeliz da turma for o escolhido pra puxar o saco da instituição onde estuda e lembrar das patacoadas dos alunos durante o ensino médio. Honestamente, a UFG nunca esteve tão distante dos meus ideais - que eu julgava os mesmos da instituição onde estudei e que tanto respeito. Parece que a redação vai voltar a ser um "bicho de sete cabeças". Estou sem chão pra iniciar o próximo semestre. Já sei, vou começar com a proposta "Minhas férias" > relato pessoal bucólico-psicológico. Quem sabe não cai no final do ano?

domingo, 17 de maio de 2009

escreveler

Desculpem os séculos sem publicação. Essas muitas aulas têm me tomado o tempo até de lembrar que tenho uma vida aqui. Sei que alguns vêm aqui ansiosos por textos novos, engraçados, desgraçados etc.
Porém, hoje apresento a vocês A escrita culinária, meu mais recente artigo sobre ler e escrever. Usei-o na específica e obtive relativo êxito (kkkkk, que linguagem é essa, guga?)
Espero que seja útil pra vcs.Abraços e beijos.

A escrita culinária


Escrever não é fácil. Nunca foi. Quem gosta de escrever admite ter facilidade para a produção textual, mas isso se deve provavelmente à quantidade de leitura do indivíduo, que por sua vez deve ser boa, bem como sua prática constante.

No entanto, na hora de escrever, um turbilhão de ideias pode invadir a mente dos menos otimistas para a escrita, tornando o trabalho muitas vezes penoso, cansativo e – na pior das hipóteses – inútil. Num outro extremo, o vazio de conteúdo também dificulta a tarefa de redigir, uma vez que é por meio das palavras, quer orais quer escritas, que se expressa o pensamento, e se não se pensa em nada no momento da redação, difícil será produzir alguma coisa.

O que fazer nesses casos de conteúdo em excesso e em falta? Ao escrever, devemos ter em mente que estamos num processo de manipulação da linguagem e do nosso leitor. Sim, quando escrevemos, fazemos o outro pensar o que quer que queiramos que ele pense. Por exemplo, neste momento você deve estar pensando em quantos quês usamos na frase do período anterior. Pois é, era exatamente o que queríamos. Claro que esse exemplo ilustra minimamente o que podemos fazer com a linguagem.

Em âmbitos mais ousados, podemos inserir informações perniciosas no texto sem que o sujeito leitor se dê conta de sua gravidade e acabe deglutindo, a partir de alguns referentes – como a ideologia –, uma verdade constituída ou falaciosa. Para exemplificar, tomemos o caso de algumas publicações de circulação nacional que, ao redigir suas matérias, deixam claro suas intenções persuasivas, maquiando a verdade como universal, quando é particular. Escrever é manipular, voltamos a dizer. Perspicaz é o leitor que compara notícias.

No que se refere à sala de aula, encontramos alguns escritores/leitores com dificuldade para redigir aquilo que lhes é pedido simplesmente porque não há um processo consciente de leitura. Ler, mais do que meramente interpretar símbolos em sons e significados superficiais em assuntos, é notar o que não foi lido. Para interpretar textos, é necessário que leiamos não só o diagrama que se nos apresenta, mas todo ele, o além dele, o aquém dele, o antes e o depois dele. Ou seja, é preciso ler o que não está escrito, ver o que não foi pensado, acompanhar um campo semântico racionalmente, fazer conexões entre os parágrafos e notar a função dos conectores dentro do texto São eles os responsáveis pela “costura” (coesão) textual e, por conseguinte, pela “harmonia” (coerência) das ideias.

Assim, não é tendo ciência do que é leitura para que escrever se torne algo fácil ou habitual, como ferver um leite ou passar manteiga num pão. Aproveitando a cozinha do último exemplo, escrever é fazer a laboriosa e complicadíssima massa folhada. Complicada porque laboriosa, acrescente-se. Ela requer manuseio de alguns ingredientes, que têm de ser colocados na hora certa, sovados na hora certa, descanso, testes de consistência, atenção às quantidades de ingredientes, paciência, mais descanso, perseverança, cuidado, um pouco de astúcia, mais sova e mais descanso. Como se vê, nosso prazer pela leitura advém de um processo longo e auspicioso da parte de quem escreveu. E comer rapidamente o croissant é não valorizar todo o trabalho que a massa folhada deu para fazer. Pior, é não entender os sabores todos que um texto simples pode proporcionar a nossa imaginação e inteligência.

Escrever não é fácil. Se alguém disse que era, estava escondendo uma verdade talvez não absoluta, mas original: escrever, quaisquer textos, é essencial. E quem tem prazer com o essencial, como o amor ou o respeito ao outro, não sente as dores do processo de redação, porque não as vê. Mas que elas existem, ô.

segunda-feira, 9 de março de 2009

epilepsia

Sou epilético. Isso é um fato. Desde 1996 tomo remédios para controlar minhas crises. Predominantemente, elas são do tipo mioclônicas, que são um tipo de crise espasmódica. É como se eu levasse um susto, um baita susto. Mas tive de tomar remédio quando, no final daquele ano, daquele longínquo 96 eu tive uma crise tônico-muscular: apaguei, me retorci, mordi, estive fora do mundo por uns segundos. Acordei com meus familiares por cima de mim, eu sem saber do que se tratava, queria logo me por de pé, queria fingir que nada havia acontecido. Mas havia. Desde então eu passei a tomar remédio controlado. Durante muitos anos, tomei Edhanol 100 mg, um tipo de fenobarbital. Esse remédio me causa sonolência e lerdeza extra, pra o já muito esperto aqui.
Até que um dia não tinha dele na farmácia e o farmacêutico me vendeu o genérico. Parecia que eu tinha descoberto a pólvora, o remédio era ótimo.
Tomei dele uns muitos anos. E então conheci minha atual neurologista, que me sugeriu outro medicamento "mais eficaz para o seu tipo de problema", dizia ela. Mas isso foi depois de eu já ter tido uma segunda crise tônico-muscular, também em casa, também rodeada de parentes. Eu havia ficado três dias sem tomar o medicamento (esquecimento, farra em excesso, irresponsabilidade).
Tudo corria bem até eu dar esse tanto de aula que estou dando hoje. Estou tendo pouco tempo pra mim, estou tendo pouco tempo pra minha saúde. Sexta eu não tomei medicamento. Sábado também não. Bebi um tantão de cerveja ainda por cima. Que que me aconteceu? Tive ontem a pior crise tônico-muscular da minha vida. Eu estava em frente à farmácia, descia do carro do meu amigo Chikão, minha mulher no banco detrás, quando já havia aberto a porta, despequei e só se ouviu o barulho seco da minha cara no cimento. Até meus próximos chegarem, eu já estava todo esfolado. Quando digo todo, estou dizendo muito mesmo. Só pra constar: um esfolado entre os dedos dos pés, um em cada "ossinho da miséria", dois em cada joelho, na mão esquerda também dois esfolados (esta inclusive está dormente até agora dos espasmos), uns hematomas sobre o ombro direito e na minha cara, a pior parte: esfolei o rosto entre a têmpora e o olho direito. Este, inclusive, está inchado como se eu tivesse apanhado no jogo do Vila. Além da minha língua, que mordi na ponta e na lateral direita.
Resumindo: estou um trapo humano, o restolho de gente, um nada, um estragado, um devolvível, um vencido, um loser.
Mas acredite, ainda consigo dar boas risadas. É claro que dói em várias partes do corpo, mas não paro de rir. Ah, e sim, estou tomando regularmente meu remédio. Sei que vcs querem me matar pela minha irresponsabilidade (que não é só minha culpa...), mas digo-lhes: estou bem.
Não bati a fonte no chão (bati a centímetros dela), não quebrei nada, não perdi nenhum membro, não perdi nenhuma função motora, não estou aleijado, não estou nada, só estou feio.
Porém, tenho a impressão de que feio eu sou quase sempre, hehehehe, então nem sofro muito.
Depois escrevo sobre como vc deve reagir quando alguém tiver uma crise convulsiva perto de vc. Uma dica: NÃO PONHA SUA MÃO NA BOCA DA PESSOA, ELA NÃO ENGOLIRÁ A PRÓPRIA LÍNGUA, COMO PARECE. DEITE-A DE LADO!
Abraços a todos.