terça-feira, 6 de julho de 2010
confúcio
terça-feira, 29 de junho de 2010
descortinando os vários véus

terça-feira, 22 de junho de 2010
o símbolo perdido
novo trabalho
sábado, 19 de junho de 2010
não era mais um josé
terça-feira, 15 de junho de 2010
vuvuzelando
domingo, 9 de maio de 2010
contodenovo
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Hipercompartilhamento
Hiperconcorrência, palavrinha surgida nos últimos tempos para amplificar aquilo que já é um problema em si: a concorrência. O mundo capitalista admite que a concorrência é importante para o crescimento econômico do mundo, pois é ela que fornece opções para o consumidor comprar melhor. É ela também que faz os animais sobreviverem na natureza, quando derrotam os demais numa luta evolucionista. Ainda a vemos no esporte, quando os atletas superam suas dificuldades nas provas em que têm de derrotar outros atletas para ser considerados vencedores. Somos concorrentes por natureza, pelo visto.
Tenho notado, também, que a concorrência tem sido estimulada na escola. Hiperestimulada, quer dizer. É comum ouvirmos de pais, educadores, alunos e não alunos que é preciso superar a concorrência para conseguir um lugar ao sol. A perspectiva deixou de ser “garantir a minha vaga” para “derrotar os outros para me garantir”, como se estivéssemos na selva e só houvesse uma presa para nós e dezenas de outras feras. Acontece que não somos feras. E não estamos na selva – ou não deveríamos estar. Muitos professores têm usado este argumento com seus alunos: “enquanto você conversa, enquanto você está no cinema, enquanto você se diverte, seu concorrente está estudando para tomar sua vaga!”.
Devemos considerar ainda o sistema desleal de educação no Brasil, que privilegia aqueles que melhor acumulam um sem-fim de conteúdo (que vai além, muito além do necessário para um menino de dezesseis anos) em detrimento do pensamento individual próprio. O discurso de “ensino massificado” está mais que repisado, nem quero ater-me a ele. Mas parece que quanto mais reflexões fazemos sobre a educação brasileira, quanto mais discutimos o tema nas faculdades de licenciatura, quanto mais entendemos o que deve ser feito, mais o “mundo real” das escolas particulares e o distorcido vestibular nos conduzem ao massacre intelectualoide. Estamos enfileirando nossos alunos no moedor de carne da hiperconcorrência. Ela não só estimula os meninos a estudar mais, a ter maior responsabilidade sobre suas vidas, como os desumaniza na medida em que prega que não é simplesmente uma disputa, é bem além disso: vamos brincar de super-homens!
É incrível como o discurso de “sobreviva ao massacre” apregoado pelas grandes escolas elitizadas do país, em especial as goianienses, é repassado às menores escolas até chegar no mais rústico piso do que se pode chamar de educação: as escolas públicas das periferias das periferias das periferias. De um lado, lousa eletrônica, ensino bilíngue e acompanhamento psicológico. Doutro, meninos sentados em cadeiras improvisadas, em salas de ensino fundamental e médio em turnos diferentes, de alpargatas rasgadas e pés imundos do universo sem asfalto. E todos querendo salvar vidas num futuro próximo.
A minha maior preocupação nem é tanto com o futuro desses jovens, porque uma hora eles acabam percebendo que o mundo real não é bem aquele apregoado no terceiro ano ou no cursinho. É pior, e grande parte da culpa de ele ser assim é que um dia alguém falou que era certo concorrer, mesmo que se usasse a cabeça dos outros como degraus para “subir na vida”. A minha maior preocupação é com o que se diz hoje na sala de aula como sendo o certo. Com a imagem que é passada adiante como sendo a verdadeira: a de que o mundo é injusto e “salve-se quem puder”. O mundo é injusto, no entanto, como dizia Drummond, vamos de mãos dadas, que é melhor, que é mais fácil.
A ideia estonteante (para não dizer estúpida) de ter mais de quarenta aulas por semana em Goiânia passa aos olhos dos pais e dos donos de escola como a situação mais normal que possa existir. “Quem quiser passar no vestibular bem, tem que estudar mais que os outros”. E não é “mais” de qualidade, de estudar melhor, é “mais” de quantidade. 40 aulas por semana? Isso é um disparate! Por que os meninos noutras bem sucedidas escolas do país têm no máximo 30 aulas por semana e passam tão bem no vestibular como nossos meninos? O problema é só o gargalo do vestibular? Garanto que não. Esse assunto rende um outro artigo.
Eu quero, então, propor que não enxerguemos mais os outros como concorrentes, mas nós mesmos, as provas que fazemos, o mundo injusto... eles são nossos concorrentes! Pessoas não concorrem, pessoas dignas correm. E juntas. Proponho também que não vejamos aquele cara da nossa área, do nosso curso, como alguém que vai tomar nossa vaga; no entanto alguém que dividirá um espaço conosco num futuro próximo.
Meu texto é utópico, sei disso desde o título. Sei disso desde o primeiro insight que tive sobre o tema para escrevê-lo. E quem foi que disse que não há espaço para a utopia no mundo atual? Quem determinou a regra de que não podemos mais visar o impossível, o inalcançável, o inatingível, o que faz da gente mais do que meros ratos de laboratório correndo em suas esteiras circulares e gerando energia para quem os faz de cobaias? Como estudantes, como educadores, como pais nós podemos orientar humanos a serem humanos não-hiperconcorrentes, mas tão somente humanos em contato direto com a incerteza que faz a gente ser melhor do que podíamos ser um dia. Porque só a certeza não garante nosso crescimento. Que tal pensarmos no hipercompartilhamento?
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
evolução?

Ora, a ideia de que os mamíferos são os animais mais desenvolvidos do planeta, ou de que o ser humano é o ser mais evoluído está ultrapassada. Ela não condiz com a realidade de sobrevivência de todos os seres que hoje habitam a Terra. Pode-se dizer, de fato, que o ser humano é apenas mais um animal da natureza. E um animal dos mais estúpidos, diga-se.
A nossa presunção em nos achar superiores aos outros animais por causa da nossa "inteligência" e "raciocínio" extremamente "desenvolvidos" nos leva a crer, concomitantemente, que tudo podemos porque estamos no topo da evolução. Na realidade, somos bem piores do que muitas bactérias, estamos aquém de seres muito mais simples do que nós e temos um senso de justiça distante da lógica mecânica do nosso planeta. Somos seres tão insípidos, que tivemos de inventar uma justiça nossa, porque a da natureza não nos serve, porque fere a nossa inteligência, porque segue as leis naturais e tira o nosso da reta na hora de fechar a conta com o meio ambiente.
Em outras palavras, subestimamos a terra que nos fornece o alimento, desprezamos as árvores que nos proveem a limpeza do nosso ar carregado do nosso CO2, estraçalhamos a vida dos mares e minamos a corrente dos rios com nossos metais para garantir o luxo de madames que desconhecem o que vem a ser extração de recursos não-renováveis. Em outras palavras, somos a imundície de nosso sistema solar e, mesmo com todos os avisos de que o fim está próximo, por religiosos, cientistas, ateus, profetas e gente comum que nunca viu tamanhos desastres naturais, nós continuamos apostando na Mega Sena pra pegar essa bolada e poder consumir à vontade, sem dar qualquer retorno ao pó de onde viemos ou ao pó aonde retornaremos cada vez mais em breve.
Enquanto a nossa noção de evolução estiver atrelada à mera capacidade de utilizar instrumentos tecnológicos que nos propicie uma vida mais fácil, enquanto consideramos que prosperidade é acumular bens e sinônimo de ficar rico, enquanto acharmos que o mundo que inventamos pra nós vai sobreviver ao mundo que estamos destruindo, nós nunca poderemos nos chamar de evoluídos, pois esse processo já tem um nome: processamento de lixo.
domingo, 10 de janeiro de 2010
(s)angra
Fico me perguntando, porém, por que todo ano é a mesma coisa. A resposta não tarda. Aliás, as respostas. É que fazer casa em local proibido é prenúncio de desgraça. Não respeitar os limites da natureza, é pedir pra ela revidar. E, como diz um ditado, "Deus perdoa, o homem, às vezes. A natureza, não".
Somos vítimas da nossa própria falta de bom senso. Nem ouso falar em consciência, é pedir demais pra uma população mesquinha que revolve o sonho nos moldes norte-americanos no Brasil.
Eu procuro fazer as coisas certas. Tem um monte de coisa a mais que eu poderia fazer, e não faço, sei disso. Outro dia fiz um teste da WWF via twitter do GreenPeace para saber meu impacto ecológico no Planeta. Achei que, mesmo eu contribuindo com algumas coisas (como evitar o uso de sacolas plásticas não recicláveis, separar o lixo em casa, não jogar lixo na rua, procurar saber a origem dos alimentos que consumo, evitar desperdício, preservar a energia e a água, etc.), o meu resultado foi frustrante: se todos vivessem ao meu ritmo, seriam necessários três planetas Terra. Ou seja, eu consumo, hoje, quase o mesmo que um mexicano! E olha que eles consomem muito por causa da influência direta dos EUA.
Agora, se nossas atitudes aqui determinam o nosso futuro neste planeta, deveríamos fazer uma revisão agressiva da nossa conduta. Passar a consumir mais orgânicos, andar mais a pé, ler mais e ver menos televisão, curtir de fato a natureza, não olhá-la como algo exótico ou extraordinário.
Comecei a fazer caminhada e, no parque onde caminho, há um pequeno pedaço de mata bem fechada. Do lado dela, fica lá um coelhão gigante, vivendo de boa na natureza. Pois no segundo dia de caminhada tinha um desgraçado querendo pegar o coelho. Como eu torci pra ele pisar numa cerca elétrica, pro coelho dar uma dentada no nariz dele, pra ele cair num buraco oculto e ficar entalado.
Nós somos responsáveis pelas escolhas que fazemos. E elas têm apontado para um buraco negro pra onde toda essa massa vai. E, se não voltar, não podemos reclamar da natureza. Ela só cobra o espaço que nós insistimos em afirmar que é nosso.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
resoluções para 2010
Na verdade, esse texto é uma obrigação minha comigo mesmo para que eu retome meu projeto de escritas aleatórias. O problema é que eu conheci o twitter e passei a twittar todo dia, praticamente, restando pouco tempo pra eu gastar aqui. O que é um erro, na verdade, porque aqui estão os textos. Lá no meu twitter estão as pílulas de redação que eu escrevo na maior das boas intenções pra ajudar meus alunos. Lá eu tenho um trabalhão pra escrever pouco, mas é um trabalho gostoso, porque o exercício da concisão é sempre um ótimo exercício, pra gente não falar besteira demais. Quanto menos falamos, menos besteira sai, isso é óbvio. Mas só tem jeito de diminuir as besteiras que falamos se exercitarmos o texto, o que inclui lê-lo e escrevê-lo. Eis o paradoxo.
Estava com saudade disso aqui, tenho que confessar. Fui ver minha última postagem e ela datava das minhas últimas férias. Espero que isso não se repita em julho de 2010 (já que se repete agora), quero voltar a escrever minhas crônicas e resenhas.
Por falar em resenha, eu ando lendo muita resenha. Meu amigo Robert me deu de aniversário/natal/amigo secreto/presente pro resto da vida, o livro 1001 discos pra ouvir antes de morrer. Cara, que livro massa. São 1001 resenhas elogiosas! E a resenha é um texto muito engraçado, porque basicamente é jornalístico. E, como tal, mesmo com o espaço pra crítica que abre, o texto quase sempre é jornalesco. Mas a resenha boa, aquela resenha que te empolga, mostra o crítico no começo do texto falando algumas obviedades sobre o resenhado e depois, lá pelo meio do segundo parágrafo, o cara não consegue segurar mais e começa a traçar os elogios mais legais, as palavras mais adequadas, os exageros mais "incometíveis" e aí fica tudo lindo. Regozijo total.
Na verdade, desde julho eu ando lendo um, dois livros de cada vez. Não tenho pressa. Demoro um tempão lendo certos livros. Sobretudo romances. To lendo tb o 1984, do George Orwell, que eu comecei a ler há mais de ano e parei porque perdi ritmo de leitura. Nunca mais eu quero que isso aconteça por causa de tempo. E aí, sabe onde eu tenho lido? No banheiro. Acredite, era um tempo perdido pra mim, mas agora eu tenho o que fazer enquanto espero acabar o que eu faço lá.
Outro lugar fantástico pra se ler é em fila de banco. Que desperdício de vida é ficar em pé, às vezes mais de hora, esperando pra dar seu dinheiro pra quem não merece. E sala de espera de consultório médico? Outro lugar fantástico pra ler tb, porque médico geralmente não respeita NOSSOS horários. E tempo àtoa deve ser dedicado à leitura. E esse àtoa é adjetivo, então é junto mesmo. Estranho, né?
Cheguei naquele ponto do texto que eu não sei mais o que escrever. Acho que isso é besteira. Deixa eu parar por aqui pra não escrever mais dela.
Bom vintedez pra vc!
quarta-feira, 8 de julho de 2009
kokakola

Exagero? Você imagine a cena: quatro pessoas sentadas num congresso ecumênico mundial sobre religiões e religiosidade, vindas dos quatro cantos do planeta, sentadas numa lanchonete e discutindo sobre suas religiões. Provavelmente, partindo do pressuposto de que foram pra um congresso ecumênico, respeitariam a religião do outro, mas sempre com aquela certeza interior silenciosa: "o meu deus é melhor que o deles, sem dúvida". Mas veja que ironia, todos eles poderiam estar tomando o refrigerante preto sem que houvesse um segundo de crítica sobre o outro. Simplesmente porque está enraizado em nossa cultura (ouso dizer em nosso inconsciente coletivo) que é apenas um refrigerante. "O que há de mal nisso?"
Bem, eu não sou um expert em problemas mundiais causados por multinacionais. Nem economista pra dizer bem ou mal de uma empresa que, por ser do tamanho que é, deve causar danos irreparáveis a pequenos ou menores empresários ou mesmo a enconomias locais. Tampouco ecologista pra alertar sobre os riscos que empresas dessa monta causam ao planeta, com seu desmatamento, sua retirada de bens não-renováveis da natureza, a poluição causada pelo transporte de seus produtos, a promoção de uma imagem socialmente legal, que, quando se analisada friamente, perceber-se-á cruel e criminosa.
Eu apenas não tomo Coca-cola. Quando parei, há catorze anos, ainda adolescente, eu ouvi que a Coca patrocinava o apartheid na África do Sul. Indignado, prometi a mim mesmo que não poria mais o refrigerante na boca. Nem sei se era verdade. Talvez fosse lenda punk. Bem, o certo é que desde então, a promessa vem sendo cumprida. No entanto, ingênuo que era, tomava Sprite, Fanta, ia a shows (vou ainda) patrocinados por ela, tomei suco, água, cerveja (ainda tomo) distribuída ou que faz parte do conglomerado chamado Coca-cola. Sei o que deve estar pensando: inútil não tomar Coca. É verdade, acho que é inútil.
Porém, acredite-me, existe um prazer asceta em não fazer algo que todos consideram prazeroso e inofensivo. Não tomar Coca-cola pra mim não é difícil hoje. O hábito fez com que eu me esquecesse qual é o gosto do refrigerante. Difícil é as pessoas entenderem isso. "Nossa, como é que você consegue?", "Ta maluco?", "Não dou conta de viver sem" etc. Cansei de ouvir isso nesses últimos catorze anos. E, quer saber, dou a mínima. Não sinto falta, acho que colaborar com a promoção da marca é aceitar tudo o que o sistema impõe. Não vou bancar aqui o anarquista que levanta bandeira. Nem tanto ao mar, nem tanto à praia. Consumo produtos "errados" também, colaboro com um monte de coisa torta que eu nem tenho ideia (como 99% dos consumidores mundiais), mas uma coisa é preciso reconhecer: dessa religião eu não faço parte.
Agora está na moda não só o refrigerante. Está na moda fantasiar-se de Coca-cola. Tenho visto uma multidão de mulheres usando calças (coca-)coladas como se o conteúdo delas fosse o próprio refrigerante. O que é pior? Essas mulheres pagam uma fortuna numa calça dessas pra fazer propaganda pra empresa. Sim, porque andar com a logo da Coca na bunda é fazer propaganda do "lado Coca-cola da vida".
Comecei falando de deus, terminarei. No Brasil, mais especificamente no Maranhão, há um refrigerante cor-de-rosa chamado Jesus. Nem é preciso dizer que Jesus é um sucesso, vivemos num país cristão que assimila bem a imagem divina associada a objetos que possam ser consumidos (isso deve incluir a palavra nas igrejas também, já que dinheiro lá é importante para a manutenção do fiel [ou do pastor, essa frase ficou ambígua!]). Sabe de uma metáfora? A Coca comprou Jesus.
Fim do desabafo.
terça-feira, 7 de julho de 2009
conversa

O papo é o seguinte: adoro camisetas. Todos perguntavam onde eu compro minhas camisetas. Muitas eu compro em qualquer lugar, a estampa é o diferencial e isso eu mando fazer. Aí sempre querem ter uma camiseta única ou igual a minha ou parecida ou totalmente diferente ou...
Pois bem, se você queria uma camiseta e não tinha como fazê-la, agora tem grandes chances de isso acontecer comigo, aqui, na Conversa de Boteco.
A princípio o lance é bem informal, estou recebendo dezenas de encomendas, mas ainda não tenho uma estrutura física ou algo do tipo. Entretanto, não é preciso quando vc tem uma ideia legal na cabeça e me passa pra fazer a camiseta pra você. E é simples, escreve pra conversadb@gmail.com com uma ideia, um desenho ou uma dúvida que eu te respondo.
As camisetas estão lindas. Confira no perfil do Conversa de Boteco no Orkut. Digita lá, "Conversa de Boteco", ehehheheh, o amarelinho é nóis.
Abraços a todos que me visitam!
segunda-feira, 15 de junho de 2009
redação
domingo, 17 de maio de 2009
escreveler
Porém, hoje apresento a vocês A escrita culinária, meu mais recente artigo sobre ler e escrever. Usei-o na específica e obtive relativo êxito (kkkkk, que linguagem é essa, guga?)
Espero que seja útil pra vcs.Abraços e beijos.
Escrever não é fácil. Nunca foi. Quem gosta de escrever admite ter facilidade para a produção textual, mas isso se deve provavelmente à quantidade de leitura do indivíduo, que por sua vez deve ser boa, bem como sua prática constante.
No entanto, na hora de escrever, um turbilhão de ideias pode invadir a mente dos menos otimistas para a escrita, tornando o trabalho muitas vezes penoso, cansativo e – na pior das hipóteses – inútil. Num outro extremo, o vazio de conteúdo também dificulta a tarefa de redigir, uma vez que é por meio das palavras, quer orais quer escritas, que se expressa o pensamento, e se não se pensa em nada no momento da redação, difícil será produzir alguma coisa.
O que fazer nesses casos de conteúdo em excesso e em falta? Ao escrever, devemos ter em mente que estamos num processo de manipulação da linguagem e do nosso leitor. Sim, quando escrevemos, fazemos o outro pensar o que quer que queiramos que ele pense. Por exemplo, neste momento você deve estar pensando em quantos quês usamos na frase do período anterior. Pois é, era exatamente o que queríamos. Claro que esse exemplo ilustra minimamente o que podemos fazer com a linguagem.
Em âmbitos mais ousados, podemos inserir informações perniciosas no texto sem que o sujeito leitor se dê conta de sua gravidade e acabe deglutindo, a partir de alguns referentes – como a ideologia –, uma verdade constituída ou falaciosa. Para exemplificar, tomemos o caso de algumas publicações de circulação nacional que, ao redigir suas matérias, deixam claro suas intenções persuasivas, maquiando a verdade como universal, quando é particular. Escrever é manipular, voltamos a dizer. Perspicaz é o leitor que compara notícias.
No que se refere à sala de aula, encontramos alguns escritores/leitores com dificuldade para redigir aquilo que lhes é pedido simplesmente porque não há um processo consciente de leitura. Ler, mais do que meramente interpretar símbolos em sons e significados superficiais em assuntos, é notar o que não foi lido. Para interpretar textos, é necessário que leiamos não só o diagrama que se nos apresenta, mas todo ele, o além dele, o aquém dele, o antes e o depois dele. Ou seja, é preciso ler o que não está escrito, ver o que não foi pensado, acompanhar um campo semântico racionalmente, fazer conexões entre os parágrafos e notar a função dos conectores dentro do texto São eles os responsáveis pela “costura” (coesão) textual e, por conseguinte, pela “harmonia” (coerência) das ideias.
Assim, não é tendo ciência do que é leitura para que escrever se torne algo fácil ou habitual, como ferver um leite ou passar manteiga num pão. Aproveitando a cozinha do último exemplo, escrever é fazer a laboriosa e complicadíssima massa folhada. Complicada porque laboriosa, acrescente-se. Ela requer manuseio de alguns ingredientes, que têm de ser colocados na hora certa, sovados na hora certa, descanso, testes de consistência, atenção às quantidades de ingredientes, paciência, mais descanso, perseverança, cuidado, um pouco de astúcia, mais sova e mais descanso. Como se vê, nosso prazer pela leitura advém de um processo longo e auspicioso da parte de quem escreveu. E comer rapidamente o croissant é não valorizar todo o trabalho que a massa folhada deu para fazer. Pior, é não entender os sabores todos que um texto simples pode proporcionar a nossa imaginação e inteligência.
Escrever não é fácil. Se alguém disse que era, estava escondendo uma verdade talvez não absoluta, mas original: escrever, quaisquer textos, é essencial. E quem tem prazer com o essencial, como o amor ou o respeito ao outro, não sente as dores do processo de redação, porque não as vê. Mas que elas existem, ô.
sábado, 14 de março de 2009
segunda-feira, 9 de março de 2009
epilepsia
Até que um dia não tinha dele na farmácia e o farmacêutico me vendeu o genérico. Parecia que eu tinha descoberto a pólvora, o remédio era ótimo.
Tomei dele uns muitos anos. E então conheci minha atual neurologista, que me sugeriu outro medicamento "mais eficaz para o seu tipo de problema", dizia ela. Mas isso foi depois de eu já ter tido uma segunda crise tônico-muscular, também em casa, também rodeada de parentes. Eu havia ficado três dias sem tomar o medicamento (esquecimento, farra em excesso, irresponsabilidade).
Tudo corria bem até eu dar esse tanto de aula que estou dando hoje. Estou tendo pouco tempo pra mim, estou tendo pouco tempo pra minha saúde. Sexta eu não tomei medicamento. Sábado também não. Bebi um tantão de cerveja ainda por cima. Que que me aconteceu? Tive ontem a pior crise tônico-muscular da minha vida. Eu estava em frente à farmácia, descia do carro do meu amigo Chikão, minha mulher no banco detrás, quando já havia aberto a porta, despequei e só se ouviu o barulho seco da minha cara no cimento. Até meus próximos chegarem, eu já estava todo esfolado. Quando digo todo, estou dizendo muito mesmo. Só pra constar: um esfolado entre os dedos dos pés, um em cada "ossinho da miséria", dois em cada joelho, na mão esquerda também dois esfolados (esta inclusive está dormente até agora dos espasmos), uns hematomas sobre o ombro direito e na minha cara, a pior parte: esfolei o rosto entre a têmpora e o olho direito. Este, inclusive, está inchado como se eu tivesse apanhado no jogo do Vila. Além da minha língua, que mordi na ponta e na lateral direita.
Resumindo: estou um trapo humano, o restolho de gente, um nada, um estragado, um devolvível, um vencido, um loser.
Mas acredite, ainda consigo dar boas risadas. É claro que dói em várias partes do corpo, mas não paro de rir. Ah, e sim, estou tomando regularmente meu remédio. Sei que vcs querem me matar pela minha irresponsabilidade (que não é só minha culpa...), mas digo-lhes: estou bem.
Não bati a fonte no chão (bati a centímetros dela), não quebrei nada, não perdi nenhum membro, não perdi nenhuma função motora, não estou aleijado, não estou nada, só estou feio.
Porém, tenho a impressão de que feio eu sou quase sempre, hehehehe, então nem sofro muito.
Depois escrevo sobre como vc deve reagir quando alguém tiver uma crise convulsiva perto de vc. Uma dica: NÃO PONHA SUA MÃO NA BOCA DA PESSOA, ELA NÃO ENGOLIRÁ A PRÓPRIA LÍNGUA, COMO PARECE. DEITE-A DE LADO!
Abraços a todos.




