quinta-feira, 22 de maio de 2008

contoII

Houve comentário do meu conto no blog... mas houve muito mais ao vivo! Pirei! Tenho mesmo leitores fiéis. E eu agradeço imensamente a visita de todos, apesar de não poder publicar tanto quanto gostaria, frustrando os mais fiéis que vêm aqui quase todo dia - alguns disseram que vêm todo dia!
Pois bem, chega de conversinha. Vou publicar mais contos meus, já que deu IBOPE (instituto do batalhão de operações da polícia especial - não tem nada a ver com obrigar as pessoas a gostar dos meus contos, imagina...). Segue um que escrevi de um jeito experimental. Eu tinha o tema na cabeça, tinha a personagem, tinha o final. Mas para que ele ficasse verossímil, eu escrevi quase cinco laudas só sobre a personagem, para poder conhecê-la, aí sim eu escrevi o conto, que deu menos de quatro laudas. Louco né?

Cheira à falta de espírito

Para o grupo Nirvana

Vitória era sócia de uma empresa de perfumes, a Campestre. Seu trabalho, dedicação, amor-próprio estavam todos voltados para empresa. Sua vida. Sempre atravessou pequenas crises existenciais enlevando o valor das coisas, diante das dificuldades, diante da vida, enfim, trazia consigo o amuleto da sua verdade, seu trabalho era sua religião, o que a provinha, o que a sustinha, o que dava a ela gosto pelo viver. Certo dia viu na tevê um sociólogo esfarrapado, barbudo, maltrapilho “Hoje, as pessoas se preocupam mais em ter do que em ser”, sublinhava ele. Lembrou do povo do centro acadêmico de quando estudava, aquele povo que matava aula pensando em fazer a revolução com uma meia dúzia de outros que não tomavam banho e não gostavam de estudar. Como podia aquele homem falar uma asneira daquelas? É claro que as pessoas querem mais ter do que ser, se elas são aquilo que elas têm, o mais lógico é que elas busquem a resolução da angústia na raiz desse dilema. Eu não vivo na Índia, dizia ela, pra sacrificar meus bens em busca de um espírito que não tem cara, de uma elevação espiritual que não faz parte da minha vida. Prefiro satisfazer-me com o que há de realmente verdadeiro e concreto na existência. É óbvio que prefiro ter do que ser, se o que tenho é o que sou.

Sabia e sentia sua importância nos comentários que ouvia acerca de seus perfumes: “ganhar um campestre é um luxo”. Achava que fazia o bem quando promovia às pessoas o estado de graça por causa de um dos sentidos mais poéticos do nosso corpo, o olfato, ter sido afetado positivamente.

E era uma mulher só.

Mas não existe nenhuma relação disso com o fato de ela ser trabalhadora, viciada nos seus negócios e no bem-seguir de sua empresa. A cada ano ela ficava mais rica e, conseqüentemente por causa da fama, mais só. A solidão não afigurava-se-lhe como um mal. Ela lia muito sobre depressão e solidão e realmente não conseguia enxergar esse medo que as pessoas tinham da solidão. A morte parecia ser pior que a solidão. A falta que um companheiro fazia a ela era física, não espiritual. E o físico, como qualquer outra coisa, era fácil de comprar.

As poucas amigas se espantavam com sua administração da solitude. Achavam que ela era uma work-a-hollic perdida, sem volta, incurável, ia morrer numa mesa de escritório. Do escárnio, praga ou inveja, ela ria gostosamente com muito dinheiro no bolso, como nenhuma delas.

Num dia de estafa mental, algumas coisas não tinham saído como ela planejou, resolveu ir a Londres. Queria tomar um banho de loja, sua terapia mais eficaz. Tomou o avião. Viagem boa na classe executiva. Aviões lembravam-na robustez. Gostava de aviões. Chegando em Londres, hospedou-se no hotel de costume, Sir David. Lá ouviu falar de um leilão que ia acontecer à noite no salão de eventos do hotel. Não havia programado fazer compras num leilão, mas bem que leilões eram divertidos. “Comecemos, então, pelo leilão”, dizia a terapeuta Vitória à paciente Vitória.

No leilão houve disputa acirrada por umas velharias que não a agradavam. Não gostava muito de música, tão pouco de coleções, então que fitas com gravações raras dos Beatles, o último microfone em que Billy Holliday cantou, sapatos do Elvis ou o cadillac 1949 vermelho, original, não despertaram sua atenção. Depois desses lances, já convencida de que ali não compraria nada (não gastava por gastar), o mestre de cerimônias anunciou um par de sandálias, crivadas de rubis e alguns diamantes que faziam contraste. Nesse momento, já em pé, Vitória sente seu sangue esvair-se e se senta como se caísse desacordada, mas com olhos vivos e desacretidados. “É lindo!”, sussurrou-se. O lance inicial era de três milhões de dólares e talvez isso não a desestimulasse, pelo contrário, fizesse com que ela se interessasse mais ainda. Ela mantinha-se em silêncio, boquiaberta, quase chorava de alegria, enquanto os lances venciam-se uns aos outros, cada um dando um pouco mais. Cobiça louca. Casais e outras mulheres como ela, solteiras e ricas, procuravam fazer a melhor oferta na tentativa de fazer bater o martelo. O silêncio dela. A última oferta beirava os cinco milhões. O frio silêncio dela. E Vitória esperou, como um aracnídeo em seu canto, a presa se aproximando.

- Cinco milhões para a senhora do Versace vermelho...

Ela ainda não movia os lábios semi-abertos, os olhos pareciam duas bilocas de vidro. Ela estava, nesse momento, dando mais sentido à vida, estava comprando algo que a representava, algo que lhe preenchia as poucas lacunas que julgava ter na vida, um par de sandálias que deixaria qualquer um hirto de tanta beleza, tão mágico era seu efeito, tão brilhantes eram as pedras. As sandálias andavam de um lado a outro pelo tablado, nos pés de uma modelo que ela sequer se lembraria no outro dia da cor dos cabelos. Era sua agora. Era ela, então.

De volta ao Brasil, sentia-se renovada, aliviada, numa espécie de gozo muito próprio de quem compra bem. Esta era uma maneira de os ricos aliviarem suas tensões – comprarem bem – que deixava qualquer pessoa revoltada. Mas cada um tem sua maneira de relaxar, cada um sabe o que é melhor pra si quando a fadiga dá seus primeiros sinais.

E meses depois, sentindo a mesma fadiga, a estafa de fazer negócios no Brasil, Vitória decidiu ir à França com o mesmo objetivo, fazer compras, renovar o que via no espelho. Já tinha muitas roupas caras, muita coisa bonita e de marcas que estavam na boca de dez entre dez ricaços como ela. Na França, pressentindo um déjà vu, participou de outro leilão nas mesmas circunstâncias, ou seja, não fora lá pra participar de leilões, mas no salão de eventos do hotel... Então viu lá um vestido pérola, com bordados estilizados e modernos, que lhe custou um milhão e meio de euros. Batia o martelo com os mesmos olhos enaltecidos, sem precedentes, incorruptíveis, desvairados, decididos. O vestido era de boa marca, tinha um corte fabuloso, mas não era de ouro, como se esperava pelo preço. É que esse povo estilista se engaja de vez em quando em causas sociais e doa parte do que ganha às tais causas.

Isso pouco interessava Vitória. Quando entrevistada na saída do leilão, ela inclusive cometeu a gafe de trocar os nomes das instituições beneficiadas. Na outra semana, tinha a foto estampada em todas as revistas semanais, em todos os tablóides internacionais que a reconheciam como “musa dos perfumes”, sendo espicaçada pelo mal-entendido. Pouco ela ligava pra isso, o mais importante, o vestido que ostentava em seu guarda-roupas, estava seguro e lindo.

No evento de comemoração dos quinze anos da Campestre, Vitória decidiu que ia abalar todas as estruturas, nenhuma mulher estaria tão bonita, seria tão desejada quanto ela. Estava decidido que aquele dia seria o dela de usar a afronta bela, sê-la. Parecia mesmo que seu objetivo era a ostentação pura e simples. Os conhecidos e amigos mais próximos falavam que ela estava perdendo a humanidade. Sabendo disso por um empregado, ela perguntou a ele, muito seca e francamente: “O que é humanidade?”. Este não conseguiu esboçar nada, sua voz travou-lhe as pregas vocais, talvez por medo da pergunta, talvez por medo da resposta.

E então, quase uma hora atrasada, no silêncio rebarbativo do salão de sua mansão, todos já esperavam-na sabendo de seus esbanjes e caprichos, aparecia Vitória, enfiada no vestido perolado que lhe revelava as sinuosas curvas do corpo magro, as pernas lisas, contornadas como por um artista renascentista. Tinha na cabeça uma tiara de ouro que ora lhe davam o aspecto de uma rainha moderna, ora de uma deusa olímpica. E os pés, os pequenos pés, desejos íntimos de qualquer podólatra, metidos nas sandálias crivadas de rubis e diamantes. Surgia irreal, um holograma. Seu orgulho de si baixava os olhos “cheios de humanidade” ao seu redor, nada rebrilhava mais que seus olhos, satisfeitos pela magnitude e classe que impunha aos presentes, todos, sem exceção, absortos.

- Você está linda, Vitória!

- Magnífica Vitória!

- Nossa, amiga, você está deslumbrante!

E homens e mulheres e garçons e diplomatas e embaixatrizes e artistas, todos curvavam-se diante do vestido e do par de sandálias que se dirigia a eles. A festa tivera início com aquela chegada. Música agora se ouvia, de boa qualidade.

Tão logo ela passava por entre as pessoas, carne e osso, sangue e vísceras começavam a desatomizar, começavam a desintegrar-se dentro da indumentária. Todos ainda mantinham o sorriso assustado e encantado pela alteza perfumada e também ela mantinha e devolvia um mesmo sorriso. Mas todas as vezes que olhava para o braço em que o bracelete de ouro puro vacilava, via-o branco, mais branco, passava pelos espelhos dos aparadores e parecia que enxergava o que tinha atrás de si, pessoas, móveis, coisas, estava desmaterializando-se transcendentalmente da carne, do que é humano. Até que as roupas, sandálias e todos os apetrechos ficaram estacionados num canto do salão, as pessoas riam, se divertiam, bebiam champanhe. Nirvana! Vitória desaparecera.

5 comentários:

RpG disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Doug!! disse...

Oi...

Eu so amigo de uma aluna sua, Laura, e eu acho mt massa o jeito que vc escreve(talvez o fato de vc se prof. de redação ajude neh xD)!!

Então é isso, até o proximo poste!!

Branna disse...

Nossa!
Uau... sei lá pq, mas, apesar d ter amado os dois contos, este último m deixou mais extasiada. Foi simplismente incrível. E o melhor é que ele se relaciona super bem com o lance de consumismo q vc discutiu na última aula.
Ah nem... fla sério! Cansa ficar sempre te elogiando, ainda mais pq vc nem se incha de falsa modéstia, neh!?
Então, calei-me!
bjs
inté

Kellen Cristina disse...

Oie...
Falei que tinha ficado com preguiça de ler, mas comecer a ler e me empolguei, acabei que li os dois contos. Fiquei fascinada. Não passo no blog todos os dias como outras pessoas, mas sempre que faço uma visitinha procuro ler todas as postagens mesmo as grandes que fico com preguiça de ler e acabo me envolvendo com os fatos, leio tudo e nem percebo que era grande. Seu blog é perfeito...
Bjux
Até a próxima!

Pedro Berocan disse...

Olha só, não vou criar polêmica aqui não. Mas acho que você alterou o final de seu conto, não seria Chavalas! no lugar de Nirvana!? Eu visito seu blog, vc tem visto o meu?

Temos que nos encontrar com um tempo melhor, aliás por falar em consumismo...o shopping não é o melhor lugar.


abração