quarta-feira, 7 de maio de 2008

conto



V
amos ver se agrado com contos também. Este eu escrevi faz uns anos. Era pra entrar no concurso do SESI, no qual já fui premiado em segundo lugar. Mas aí, com este, eu não ganhei. Fiquei meio puto, porque acho o conto legal. Mas nem sempre eu consigo ser melhor do que eu. kkkk, desculpem a modéstia, às vezes eu não resisto. Espero que gostem. E comentem, caramba! Vou até colocar uma figurinha qualquer pra você não desistir da leitura. Qualquer não, é do Amílcar de Castro, da série que ilustrou os livros do Kafka pela Cia. das Letras no Brasil.



Sem(pre) troco

Elaine exercia função de caixa registradora num supermercado em ascensão. Daqueles que não se tornaram lojas de departamento ainda, mas têm mais do que o necessário. E é de supérfluos que grandes supermercados sobrevivem. O supermercado é o espelho de seus clientes. Este sim é o bom. E lá estava ficando muito bom. Mas ainda não tinha organização. O dono pensava que tudo tinha seu tempo e que deveria ir devagar, só cobrar de seus funcionários – as maquininhas registradoras e os empacotadores e os fiscais e os padeiros e açougueiro, os entregadores e o gerente – o que já fosse significativo para a empresa. O nome do supermercado era Ceu. O nome do proprietário era Ceulomar. Daí que quando o supermercado estava perto de abrir – isso foi o que o dono mais ansiou enquanto fazia os preparativos pra inauguração – ele botou um carro de som no bairro anunciando “Está chegando o seu novo supermercado, está chegando o Ceu Supermercado!”; e logo as pessoas ficaram curiosas pra saber o nome do estabelecimento, porque quando ouviam, não entendiam direito que o nome era Ceu. Mas duas semanas de inaugurado e o povo passou a chamá-lo de Céu. Era o que se lia na fachada, segundo ele – o povo. Antes era uma pequena venda, um mercadinho só, que nem nome não tinha. Era pegue-pague que o povo chamava, apesar de oficialmente se chamar Mercearia Viana. Que seu Ceulomar se chamava Ceulomar Viana. E andava prosperando.

E ele tinha a funcionária Elaine, recém-contratada pra “expansão” da mercearia, que agora tinha o status de supermercado. Elaine não era boa pessoa, isso se podia dizer dela sem medo de errar. Nem mesmo suas angústias justificavam seu gênio torto. Parecia estar sempre em estado de vingança. Parecia sempre alimentar esse ímpeto que lhe apertava a vagina toda vez que fazia uma ruindade. Eis que sua cara era mesmo medonha. Não era feia, isto não era. Mas tinha o cenho franzido sempre. E quando ria, ainda os olhos não riam junto: os cortes no entressobrancelhas, vincos fundos e que ninguém os já vira diferentes.

Mas era discreta. Suas maldades eram pequenas, no entanto suficientes pras pessoas perceberem que não deviam pisar o rabo dela. Bote pronto cem porcento. Toda hora e o batom grosso, sobrando bolinhas nos lábios finos, denunciava um ataque. Cães raivosos espumam a boca. Elaine fechava a boca e o batom ficava mais vermelho. Nas quartas-feiras pela manhã a loja ficava das mais vazias, só mesmo meninos comprando balas e chicletes e donas de casa velhas algum tempero.

Nos dias de tédio, ela se lembrava o tempo inteiro de sua existência.

E amarrava bem a boca das sacolas com as compras, dando nós cegos que inutilizavam as sacolas para o depois. Tinha uma maneira empacada de fingir-se surda quando as senhoras pediam-lhe para não fechar as sacolas. Talvez ignorasse porque não fechava as bocas das sacolas, mas as trancafiava. Só na faca ou na tesoura pra abrir depois.

E devolvia trocos em miúdos o quanto podia. Era sempre a mais bem disposta a ir trocar dinheiro no banco três lojas ao lado. Saía e João, o entregador, sempre comentava “essa Elaine é moça prestativa mesmo, todo dia vai cinco, seis vezes ao banco, enfrenta o mau humor dele, às vezes mesmo pega fila, e ainda volta com tudo trocadinho”; mas não era disposição para a loja, para com as colegas, era a sua disposição em fazer as maldadezitas. Dona Cora ia ao supermercado ao menos duas vezes por semana e sempre dizia a Elaine – com quem mantinha um tipo de luta psicológica – que queria o dinheiro graúdo. Ela pedia, Elaine entregava moedas, não fazia questão, sentia a mulher se magoando com a falta de tato dela e isso quase lhe fazia sorrir.

Num dia deixou um alfinete no teclado da míope do caixa ao lado sem ninguém perceber. A coitada furou o dedo fundo e ficava digitando com a mão esquerda. Aquele sofrimento de ter de adaptar-se fazia Elaine dar piruetas no peito, por dentro, de alegria.

Apesar da lei de que tudo o que aqui se faz, aqui se paga realmente se aplicar em seu caso, ela não se deixava abater por nada. Prosseguia na sua busca incessante. E sua busca consistia num ato de amor irrefutável, consistente pela própria natureza – insólita e coerentemente bem-feita – em rasgar a película placentária que a envolvia desde que nascera de novo, resolvida por psicólogo, ainda de quando mantinha relações com seu pai aos oito anos de idade. É claro que isso não justifica suas maldades, que maldade não é senão um espectro das coisas aparentemente boas que nos circundam. Só a maldade é verdadeira, até mesmo a mentira é verdadeira. Mas Elaine não mentia, não que isso não pudesse fazer, isso sabia fazer bem, mas que sua memória traía-a de quando em vezes e então descobriam-na. Era má e insuportava ser desmascarada.

Suas intimidades eram obscuras a todo mundo, ninguém sabia alguma coisa dela. Ela tergiversava, tergiversava quando perguntavam onde ela morava ou se tinha namorado ou se estudava ou se gostava daquela música. Ela escapulia e muitas vezes o banheiro foi palco de seus gritos ocos e surdos. Quando arrancava os grossos pelos das ventas, tão miúdas e tão alinhadas que quem é que iria notar que lá pelos havia? ou quando seu tesão lhe afoitava a mente e ela se masturbava pensando naqueles mais vis, mais feios, mais toscos ao seu redor. Tico, um empacotador, era negro, de barriga grande e nenhum pelo, tão tímido que era feio. E ninguém ligava para a presença de Tico lá. Nem mesmo Elaine. Só quando se masturbava pensando naquele barrigão nela. E quantas não foram as vezes que ela se acabou dentro do banheiro e em um minuto se recompôs, despertando nenhuma atenção dos outros...

Elaine era fogo, dragão moreno mal intencionado.

Mas eis que num dia quarta-feira-trivial, em que todos estão presentes na loja, surge um diabo que ela tratou como um qualquer, como era tratado quem ia ao supermercado na quarta, e ele, aparentando ser mecânico pela cor da roupa, já sabia de Elaine. Na cabeça dela, ele era realmente um estranho. Pois que ele comprou uma cera pra carro e um cheirinho de colocar no console e, assim que ela passou os produtos pela leitora ótica, ele pediu franco, nos olhos dela, que não amarrasse a boca das sacolas. Como de costume ela procedia, chegou a fechar a primeira sacola, olhando pra baixo, já no seu lugar-comum de superar ordens alheias, quando na segunda sacola passou a primeira alça pela outra, ele segurou seu braço com força, fixo ainda nos olhos, e pediu soletrando pra que ela não fechasse a boca da sacola com nó. Sim? Ela parou, olhou uns instantes a cara fechada do rapaz, continuou sua alçada e, por fim, deu um nó ceguíssimo na sacola, com agora não só o cenho mas com o queixo também franzido.

Ele soltou seu braço e que se de olhos fechados ela estivesse, ele certamente estaria se entregando, mas seus olhos não estavam fechados e o que ele fez foi levar a mão à nuca de Elaine, surpreendendo-a com um esfrega-boca, que aquilo não se pode chamar beijo, cinematográfico. As colegas levavam a mão à boca, a míope tirou os binóculos e esfregou os olhos descrente, o João sentiu ciúme, o Tico quis ir ao banheiro se masturbar e seu Ceulomar achou poético, coisa de filme, bonitinho, mas provavelmente iria despedi-la pela má conduta para com o cliente, por isso provocara o que ocorria, ele tinha visto tudo.

Fim do ato, desgrudados: ela arregalou os olhos, ele pegou suas sacolas com as bocas amarradas, ela acompanhou seus movimentos, ele se foi. Seu Ceulomar foi se aproximando dela, já disposto a dar o esbregue e mesmo antes dele começar a falar, o dedo indicador ainda em riste, seus passos aproximando-se do caixa dela – e o estranho se indo – ela saiu de seu gabinete bruscamente em direção à rua. Seus olhos ainda acompanhavam os passos sumidos do estranho mecânico. O homem sumira e ela correra como pôde atrás dele. Os funcionários não puderam acompanhar o desfecho da história, se ela iria se casar com ele ou matá-lo, pois que trabalhavam. Mas ela nunca mais voltou ao supermercado, quer por vergonha, quer por vitória, quer por medo de enfrentar seu fracasso. Justo Elaine, que nunca tinha perdido de um cliente.

E quem é que espera a vitória? Não é de fios que se constrói a teia, de riscos, a vida, de lodo, o verde, de sangue, o vermelho, de vis-a-vis?

Elaine era muito viva.

7 comentários:

Pedro Berocan disse...

Muito bom Guga!
O Título já merecia o prêmio.
Abraço

georgeton disse...

massa, mas eles explicaram pq vc n tirou o 1º lugar?
pq na minha opiniao (msm n lendo o ganhador) foi mutreta
^^
flws

Mariana disse...

guuuuuga, eu amei o conto! muuito massa! parabéns ;D
ain ain, esse é meu professor, dá licensa?(digo professor pq isso é algo eterno, sacou?)
te adooro ;*

Pedro Henrique disse...

guga, perfect!
gostei mmmmmmt.
qnd crescer quero ser alguem como vc... hsuahsua

Jéssi Frazão disse...

Cada dia minha admiração por vc aumenta Guga!Seu conto foi simplismente perfeito...Não entendo como pôde ficar com o 2º lugar...Aff,o povo é doido!=/

Gugaaa.Vc éh o melhor!!!
O que será que aconteceu com a Elaine?
Tomara que ela tenha tido um final feliz e tenha conseguido dar uma cor para vida dela!
hehe!

beijooos*.*

.guga valente. disse...

Povo, vcs estão viajando. Esse conto nem foi classificado no concurso do SESI. O que ficou em 2º é outro. Seus doidos. Também, ficam me lendo demais, dá nisso.
Abraço a todos!

Danna disse...

pois deveria ter ido, e com certeza iria ganhar o PRIMEIRÃO!