quinta-feira, 3 de julho de 2008

contoV




Estou de férias, finalmente. Agora o Bololololog não vai ficar tão desatualizado assim. Eita povim que reclama de eu não atualizar. E o pior é que são sempre as mesmas três pessoas (acho que são as únicas que lêem o que escrevo, eheheheh).

Estou numa fase tranqüila, gripado e com o olho inchado pelo mosquito que bateu nele quando estava de moto com a viseira aberta. Enfim, vcs não têm nada com isso, né? Pois então.
Esse conto foi publicado pela primeira vez no fanzine Demo Cognítio, o melhor de Goiânia (o zine, viu Thamires?). Boa leitura.



Abrupto: vida

Ele passava diante de uma loja de perfumes e a avistou de longe. Irrompendo pelos corredores de lojas do shopping, viu que era ela. "É ela!". Entrou na loja estupefato e a usual saudação da vendedora a qualquer um que entrava lá, deu lugar a um assombramento pela cara hirta do rapaz. Ela balbuciou algo como "pois não?", mas sequer ele ouviu, pois já foi desferindo palavras que pareciam de um louco em pleno surto. Não que isso não se pudesse dizer a seu respeito.

A gente precisa fazer sexo!

Ã?

Sexo, a gente precisa transar.

Tá maluco?

Ele realmente parecia estar maluco, mas parecia, ao mesmo tempo, ter a clareza das coisas, a lucidez dos sãos, a limpeza das águas cristalinas de um rio corrente e gelado, e a determinação de um terrorista.

Segurou na mão dela com alguma força, talvez firmeza seja mais adequado, enquanto ela tentava processar tudo o que ele falava e recendia. Ele tinha um cheiro que se sobrepunha aos da loja dela e se impunha como responsável por ser sexualmente transmissível. Gente é assim. Ela foi ficando sem jeito, as outras duas vendedoras mantiveram-se guardando seus perfumes e cuidando da loja tranqüilamente, enquanto os transeuntes ficavam definitivamente cegos pro que estava acontecendo.

– A gente não pode mais continuar assim, medíocres, discretos, comuns. Olhe nossas roupas, olhe nossas aparências (ele parecia um balconista de pastelaria e ela uma vendedora de loja de perfumes), olhe que vida mais idiota nós estamos levando!

– Mas essas coisas não se resolvem assim... eu não posso simplesmente transar com um estranho,

– Muito prazer, meu nome é Querosene, por isso não, vamos sair daqui agora, a gente tem pouco tempo, por favor, vamos, vamos....

E ia puxando-a pelo braço, que resistia, mais por hábito que por medo. Parecia que os dois concordavam com o momento. Estava óbvio que ela empacava porque nunca tinha vivido nada parecido, não porque não conseguisse entender. Ela entendia. Ela tanto entendia que foi atrás dele. Tanto que saiu da loja de alguma maneira, em pleno sábado, dia cheio, de algum jeito que os dois quase corriam, como marido e mulher indo atrás de seu carro que pegava fogo. Não tinha carro que pegava fogo, eram seus corpos quentes como brasa.

Eles já tinham caminhado de mãos dadas cerca de 50 metros quando ele parou, ela chegou a tropeçar nele e se viram de perto, menos de 15 cm do nariz um do outro. Um beijo resfolegante os atraiu e paralisou o tempo, o som, o lugar. Estavam inaudíveis, invisíveis, intocáveis naqueles segundos de reconhecimento labial e de língua. Foi o beijo deles. Separaram-se e reconheceram-se insanos com aquela estupidez consentida. Quem via os dois correndo podia imaginar que eles tinham destino certo. Não, não sabiam pra onde iam, simplesmente iam, parece que lançar-se-iam no abismo da vida. Parece que sairiam pela vagina de suas mães e dariam o grito da vida, o grito oco, seco, soco que é o máximo do tesão. O primeiro orgasmo é sair da mãe. Eles destruíam a placenta pra saltar no despenhadeiro pedrerrochoso da vida. O que sobraria? O que seria esse sexo que fariam?

No estacionamento do shopping ele se dirigia a passos largos (ele muito mais alto que ela, fazia-a correr) para a parte mais escura, onde luzes queimadas e luziluzentes denunciavam que dentro do centro de compras das luzes que funcionam, das pessoas que são bonitas, das altas somas que são gastas, tudo isso era o mundo idílico, enquanto que no estacionamento os lixos, os odores e as luzes queimadas se pareciam com a verdade do mundo cru da noite: farrapos, almas penadas, pingas, maus cheiros, violências e o que mais existe. Lá num canto ele já estava desabotoando a camisa e colocando-a pra fora da calça. Nem olhava pra trás. Ela estava apaixonada. Seus olhos tinham um brilho estranho enquanto era arrastada como uma mulher das cavernas pelo macho que sentia a hora de procriar e delimitar seu território e suas posses. Assim que ele parou e olhou pra ela, viu aquele brilho incomum conquistado em três minutos e teve certeza de que faria o melhor sexo do mundo.

Pela primeira vez desde que os dois se viram, ele se acalmou enquanto serpenteava o corpo dela com as mãos, à procura da entrada de onde era possível alcançar a alma. Ela tirou toda a roupa e nua em pêlo se entregou ao homem de nome Querosene. Enquanto seus corpos desrespeitavam as leis da física no parapeito do estacionamento superior, seus gemidos começaram a substituir a música ambiente da rádio do shopping.

À medida que as pessoas começavam a ouvir os gemidos intensos, estes aumentavam de volume e de intensidade.

Neste instante, depois de uns dois minutos de afobação daqueles que ouviam o som da vida se fazendo, 1354 pessoas e 136 crianças viram o som do centro comercial desaparecer pra dar eco aos ulos selvagens e destemidos daqueles que acordaram enquanto havia tempo. Luzes começaram a brilhar mais forte, homens ruborizavam-se por suas calças esticando-se, mulheres, pelas pernas que escorriam o líquido lubrificante, e os casais, os que haviam lá, já se entregavam aos beijos sôfregos e desesperados, e as pessoas que não formavam casal, como na brincadeira da cadeira, começavam a se olhar animais, e a agarrar-se uns aos outros, como se a música tivesse parado de tocar e fosse o momento de sentar à cadeira. Até que foi ficando escuro, os gemidos se intensificavam por todos os lados, as lâmpadas, antes brilhando forte, agora se arrebentavam de tanta energia e o mundo se fazia inteiro entregue ao desespero do amor instantâneo; pênis, vaginas, seios, bocas, colos, costas, barbas, ânus: vida.

Querosene quis saber o nome de sua parceira revolucionária, de vida e de morte: "Flamma, me chame de Flamma". E o mundo agora era só fogo e vida quente pulsando firme.

5 comentários:

Branna disse...

Atchiinnn...
Krak... esse blog jah tava juntando poeira, viu Sr. Guga?
Enfim vc criou coragem pra atualizar isso aki. E,pra compensar a ausencia, chegou arrebentando.
Parabéns!!! Mais um de seus maravilhosos e indescritíveis contos. É, o seu único defeito como escritor é mesmo a total ausência de modéstia... sorte que seus leitores (q com crteza são muuuuuuiiiito mais q 3) relevam isso.

Ow... mas mudando d assunto...
Vc nunk ouviu falar q tm uma lei que proibe dirigir com a viseira aberta n? Affe... prudência ao trânsito com crteza n é o seu forte. Prova disso s os incontáveis acidentes com o carro da sua irmã, com sua moto, ... ixii, é melhor deixar pra lá.

Então... melhoras e inté!

Pedro Berocan disse...

Abraço pra meu amigo caolho! Pior de tudo isto são as piadinhas depois. Quero saber se socorreu a vítima após o atropelamento?

Muito boa esta explosão de prazer.

Pelo menos eu comento!!!!!!

Andrea disse...

Caralho..louuquissimo....foi vc quem escreveu??
Ficou mt bom....
saudadesss
Andrea Praude

Danna disse...

Esse vc já leu na minha sala.. e com sua voz é mais emocionante ainda..

e esse com certeza, pra mim, é um dos melhores.. tirando o da telemarketing...

xeroooo

Sulla Mino disse...

Vir lhe visitar hoje foi uma enorme prazer...Adorei tudo. Qual o seu e-mail para enviar texto para serem corrigidos?
Qual valor?
Como faríamos?
Bjks