segunda-feira, 15 de junho de 2009

redação


Todos sabem que redação é minha vida. Todos sabem que sem escrever não fico e sem falar disso não vivo. Dar aula pra mim é bem mais que um ganha-pão, é profissão de fé, é amor à causa, é crer que a escrita pode mudar o mundo, porque é lendo, informando-se e, sobretudo, pondo pra fora o que somos em palavras e textos, é que atingimos nossas metas. Das incipientes às derradeiras. Também não é segredo pra ninguém que, ao entrar numa sala de aula, tento colocar no quadro, na voz e no amor que tenho pela escrita tudo o que aprendi. Tudo mesmo. Já me vi inúmeras vezes tratando de assuntos e textos com alunos que nem na Universidade eu vi. Sou topetudo e bato de frente com o que não concordo nos livros. Exponho isso aos alunos e deixo o peito aberto pra aprender com os erros e críticas. Inclino-me a uma boa retórica que se me apresenta, mas curvo-me diante de um bom argumento. E a Universidade Federal de Goiás sempre foi um bom argumento pra mim, mesmo quando vacilou em seus vestibulares (o manifesto no lugar de uma carta aberta, em 2008, é só um exemplo). Sempre segui a teoria dos gêneros discursivos adotados pela instituição (que os adota desde 2003) e faço questão de frisar que, se hoje ela abandonasse esse estilo de prova e retomasse o da tipologia (dissertação e narração), eu continuaria trabalhando o gênero, porque acredito que é nele que realizamos o mundo real, nas revistas, nos jornais, nas pequenas publicações, na televisão, na escola... enfim, na vida. E até hoje, desde 2003, não houve um ano em que não fui surpreendido pela prova, seja pelo tema, seja pelas modalidades de texto exigidas. Surpresas, na maior parte das vezes, boas. Contudo, a surpresa que tive hoje foi desagradável, teve gosto amargo e de proposta errada. O tema foi indiscutivelmente interessante ("O papel da arte na vida cotidiana: utilitário e/ou estético?"). Inovador, instigante, necessário, útil, enfim, não tenho do que falar dele, excelente, como inúmeros. Porém, no que concerne aos gêneros, a impressão de que a UFG quer "aparecer" pro mundo acadêmico foi patente. A primeira pergunta que me veio à mente foi: por que gêneros totalmente inusuais no lugar dos presentes em nosso cotidiano? Pedir aos candidatos Biografia? Discurso de formatura? Da carta eu nem falo, porque foi o único certo a meu ver. Agora os dois primeiros... Quando falo em gênero discursivo, espero que meus alunos entendam as várias manifestações dos textos frente à realidade, ao cotidiano, ao mundo. E não posso deixar de falar que o meu norte, e o de outros tantos professores de produção textual da cidade, é exatamente essa prova da UFG. É ela que nos dá a deixa do que trabalhar em sala como sendo o possível e o real. E se já é impossível trabalhar todos os gêneros em todo o ensino médio (considerando que hoje o ensino médio tem dois anos e um pré-vestibular no terceiro), quiçá trabalhar aqueles totalmente improváveis. Não estou aqui choramingando por não ter "acertado" os gêneros exigidos. Longe disso. Aplaudi a instituição quando editorial (2005), artigo de divulgação científica (2006) e carta aberta (2006) foram pedidos, mesmo eu não os tendo trabalhado em sala. A minha crítica é que se o norte que deveríamos tomar em sala é o de que "tudo é possível de ser pedido", daqui a pouco os referenciais serão poucos pra sustentar na cabeça desses jovens, que ingressam na universidade sem saber por que escrever é necessário, a importância de se estudar os gêneros e não só os tipos de texto. Temo ter que iniciar o próximo semestre trabalhando em sala horóscopo, receita médica e bilhete escolar, na esperança de meus alunos entenderem o que é o gênero pra UFG. Sei que gênero é aberto, e tudo é possível e híbrido. Mas precisamos de um mínimo de limite, um mínimo de coerência. Se o objetivo da banca é fazer-nos refletir com os alunos sobre as condições do gênero discursivo no mundo, ótimo, então que ela promova simpósios e minicursos, como os que fazia a minha amiga Mary Fátima Lacerda, para que a comunidade alcance o que está na cabeça e no propósito dos avaliadores, porque, sinceramente, nem todo gênero ajuda o outro. Assim como a UFG nos deu a mão agora, nesta prova, pra nos empurrar. Os examinadores e responsáveis por esta prova (e por outras de outros anos) certamente não se colocam no nosso lugar. Se o fizessem, talvez pensassem que um mínimo de relação com o verdadeiro cotidiano a prova deveria pedir. Biografia é texto que a maioria dos candidatos nunca leu. Ou mesmo produziu. Discurso de formatura, talvez o primeiro com o qual eles tenham contato será no final deste ano, quando terminarem o terceiro ano e um infeliz da turma for o escolhido pra puxar o saco da instituição onde estuda e lembrar das patacoadas dos alunos durante o ensino médio. Honestamente, a UFG nunca esteve tão distante dos meus ideais - que eu julgava os mesmos da instituição onde estudei e que tanto respeito. Parece que a redação vai voltar a ser um "bicho de sete cabeças". Estou sem chão pra iniciar o próximo semestre. Já sei, vou começar com a proposta "Minhas férias" > relato pessoal bucólico-psicológico. Quem sabe não cai no final do ano?

domingo, 17 de maio de 2009

escreveler

Desculpem os séculos sem publicação. Essas muitas aulas têm me tomado o tempo até de lembrar que tenho uma vida aqui. Sei que alguns vêm aqui ansiosos por textos novos, engraçados, desgraçados etc.
Porém, hoje apresento a vocês A escrita culinária, meu mais recente artigo sobre ler e escrever. Usei-o na específica e obtive relativo êxito (kkkkk, que linguagem é essa, guga?)
Espero que seja útil pra vcs.Abraços e beijos.

A escrita culinária


Escrever não é fácil. Nunca foi. Quem gosta de escrever admite ter facilidade para a produção textual, mas isso se deve provavelmente à quantidade de leitura do indivíduo, que por sua vez deve ser boa, bem como sua prática constante.

No entanto, na hora de escrever, um turbilhão de ideias pode invadir a mente dos menos otimistas para a escrita, tornando o trabalho muitas vezes penoso, cansativo e – na pior das hipóteses – inútil. Num outro extremo, o vazio de conteúdo também dificulta a tarefa de redigir, uma vez que é por meio das palavras, quer orais quer escritas, que se expressa o pensamento, e se não se pensa em nada no momento da redação, difícil será produzir alguma coisa.

O que fazer nesses casos de conteúdo em excesso e em falta? Ao escrever, devemos ter em mente que estamos num processo de manipulação da linguagem e do nosso leitor. Sim, quando escrevemos, fazemos o outro pensar o que quer que queiramos que ele pense. Por exemplo, neste momento você deve estar pensando em quantos quês usamos na frase do período anterior. Pois é, era exatamente o que queríamos. Claro que esse exemplo ilustra minimamente o que podemos fazer com a linguagem.

Em âmbitos mais ousados, podemos inserir informações perniciosas no texto sem que o sujeito leitor se dê conta de sua gravidade e acabe deglutindo, a partir de alguns referentes – como a ideologia –, uma verdade constituída ou falaciosa. Para exemplificar, tomemos o caso de algumas publicações de circulação nacional que, ao redigir suas matérias, deixam claro suas intenções persuasivas, maquiando a verdade como universal, quando é particular. Escrever é manipular, voltamos a dizer. Perspicaz é o leitor que compara notícias.

No que se refere à sala de aula, encontramos alguns escritores/leitores com dificuldade para redigir aquilo que lhes é pedido simplesmente porque não há um processo consciente de leitura. Ler, mais do que meramente interpretar símbolos em sons e significados superficiais em assuntos, é notar o que não foi lido. Para interpretar textos, é necessário que leiamos não só o diagrama que se nos apresenta, mas todo ele, o além dele, o aquém dele, o antes e o depois dele. Ou seja, é preciso ler o que não está escrito, ver o que não foi pensado, acompanhar um campo semântico racionalmente, fazer conexões entre os parágrafos e notar a função dos conectores dentro do texto São eles os responsáveis pela “costura” (coesão) textual e, por conseguinte, pela “harmonia” (coerência) das ideias.

Assim, não é tendo ciência do que é leitura para que escrever se torne algo fácil ou habitual, como ferver um leite ou passar manteiga num pão. Aproveitando a cozinha do último exemplo, escrever é fazer a laboriosa e complicadíssima massa folhada. Complicada porque laboriosa, acrescente-se. Ela requer manuseio de alguns ingredientes, que têm de ser colocados na hora certa, sovados na hora certa, descanso, testes de consistência, atenção às quantidades de ingredientes, paciência, mais descanso, perseverança, cuidado, um pouco de astúcia, mais sova e mais descanso. Como se vê, nosso prazer pela leitura advém de um processo longo e auspicioso da parte de quem escreveu. E comer rapidamente o croissant é não valorizar todo o trabalho que a massa folhada deu para fazer. Pior, é não entender os sabores todos que um texto simples pode proporcionar a nossa imaginação e inteligência.

Escrever não é fácil. Se alguém disse que era, estava escondendo uma verdade talvez não absoluta, mas original: escrever, quaisquer textos, é essencial. E quem tem prazer com o essencial, como o amor ou o respeito ao outro, não sente as dores do processo de redação, porque não as vê. Mas que elas existem, ô.

segunda-feira, 9 de março de 2009

epilepsia

Sou epilético. Isso é um fato. Desde 1996 tomo remédios para controlar minhas crises. Predominantemente, elas são do tipo mioclônicas, que são um tipo de crise espasmódica. É como se eu levasse um susto, um baita susto. Mas tive de tomar remédio quando, no final daquele ano, daquele longínquo 96 eu tive uma crise tônico-muscular: apaguei, me retorci, mordi, estive fora do mundo por uns segundos. Acordei com meus familiares por cima de mim, eu sem saber do que se tratava, queria logo me por de pé, queria fingir que nada havia acontecido. Mas havia. Desde então eu passei a tomar remédio controlado. Durante muitos anos, tomei Edhanol 100 mg, um tipo de fenobarbital. Esse remédio me causa sonolência e lerdeza extra, pra o já muito esperto aqui.
Até que um dia não tinha dele na farmácia e o farmacêutico me vendeu o genérico. Parecia que eu tinha descoberto a pólvora, o remédio era ótimo.
Tomei dele uns muitos anos. E então conheci minha atual neurologista, que me sugeriu outro medicamento "mais eficaz para o seu tipo de problema", dizia ela. Mas isso foi depois de eu já ter tido uma segunda crise tônico-muscular, também em casa, também rodeada de parentes. Eu havia ficado três dias sem tomar o medicamento (esquecimento, farra em excesso, irresponsabilidade).
Tudo corria bem até eu dar esse tanto de aula que estou dando hoje. Estou tendo pouco tempo pra mim, estou tendo pouco tempo pra minha saúde. Sexta eu não tomei medicamento. Sábado também não. Bebi um tantão de cerveja ainda por cima. Que que me aconteceu? Tive ontem a pior crise tônico-muscular da minha vida. Eu estava em frente à farmácia, descia do carro do meu amigo Chikão, minha mulher no banco detrás, quando já havia aberto a porta, despequei e só se ouviu o barulho seco da minha cara no cimento. Até meus próximos chegarem, eu já estava todo esfolado. Quando digo todo, estou dizendo muito mesmo. Só pra constar: um esfolado entre os dedos dos pés, um em cada "ossinho da miséria", dois em cada joelho, na mão esquerda também dois esfolados (esta inclusive está dormente até agora dos espasmos), uns hematomas sobre o ombro direito e na minha cara, a pior parte: esfolei o rosto entre a têmpora e o olho direito. Este, inclusive, está inchado como se eu tivesse apanhado no jogo do Vila. Além da minha língua, que mordi na ponta e na lateral direita.
Resumindo: estou um trapo humano, o restolho de gente, um nada, um estragado, um devolvível, um vencido, um loser.
Mas acredite, ainda consigo dar boas risadas. É claro que dói em várias partes do corpo, mas não paro de rir. Ah, e sim, estou tomando regularmente meu remédio. Sei que vcs querem me matar pela minha irresponsabilidade (que não é só minha culpa...), mas digo-lhes: estou bem.
Não bati a fonte no chão (bati a centímetros dela), não quebrei nada, não perdi nenhum membro, não perdi nenhuma função motora, não estou aleijado, não estou nada, só estou feio.
Porém, tenho a impressão de que feio eu sou quase sempre, hehehehe, então nem sofro muito.
Depois escrevo sobre como vc deve reagir quando alguém tiver uma crise convulsiva perto de vc. Uma dica: NÃO PONHA SUA MÃO NA BOCA DA PESSOA, ELA NÃO ENGOLIRÁ A PRÓPRIA LÍNGUA, COMO PARECE. DEITE-A DE LADO!
Abraços a todos.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

aforismo

Eu adoro aforismos, essas máximas que costumam trazer mais do que a verdade universal, mas a verdade individual de seus autores. Num átimo de bobeira, um autor tem seu insight na forma tal de uma epifania que pronuncia (ou escreve) a sequência exata de palavras que se tornam o totem ao qual reverenciamos ou meramente damos as costas.
Ando querendo publicar uns desaforismos aqui no tessitura. Quem sabe. Segue este belíssimo aforismo sobre escrever, do Calvino. Dedico-o aos companheiros blogueiros e alunos aplicados em composição.


"Escrever é sempre esconder algo de modo que mais tarde seja descoberto" - Italo Calvino.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ii - soneto


Comendo teu corpo em chamas,

sorvendo teu ventre sem vestes,
estamos, bem perto, prestes
a fervermos nessas camas.


Tal o fogo por que clamas,
é como sempre estivesses

a queimar em tuas preces
meu templo após plenas flamas.

E assim, cinzas acabadas,

depositados em urnas,

esperamos nova lida


com faíscas cintiladas

e nossas vontades unas

pras labaredas da vida.



i

Pra quem me perguntou o que era prosa poética... mas já adianto, isto não é uma boa resposta.
___________________guga




Muito tempo sem escrever. Acho que perdi a mão. Ou ela não me respeita mais. Ou invento desculpas para não praticar. Ou jogo no pc para despistar a vontade. Ou releio os recados e me xingo. Ou apenas desabafo com minha consciência suja. Ou desrespeito os meus poucos leitores. Ou lembro que minha leitura está atrasada. Ou recito versos, crio poemas, estudo linguística, sonho com motos e pessoas, bebo cervejas, como carnes, rio, rio, rio e volto à mesma míngua mole e massificada dos meus textos infinitos – porque, veja só, não os finalizei.

Leio Clarice Lispector e Fernando Sabino trocando cartas. Leio Huxley via e-book. Leio Veja pra ter sempre o que falar, mesmo quando não houver significado. Leio os filmes que vejo. Leio as pessoas. Leio a rua. Leio as nuas. Leio esse-eme-esses. Leio Rolling Stone e títulos de spams. Letras punks eu não leio. Eu as ouço.

Sinto cheiros, lato, perco a voz, solto, insulto alguém, insinuo fadigas, corro, tenho vontade de correr como Gump e contar histórias tão bem quanto ele. E, num processo de autodepreciação incrível, religiosamente pareço não acreditar em milagres. Eu não acredito neles. Eu não acredito. Eu não. Eu. Eu, quem?




Seus textos sempre me afetam. Minha pele muda de cor quando eu estou perto dessas letras. Não estou nu, mas poderia. Até um soneto eu fiz.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

infantil

Recebi por e-meio, não sei quem é o autor... mas é massa!

- E aí, véio?
- Beleza, cara?
- Ah, mais ou menos. Ando meio chateado com algumas coisas.
- Quer conversar sobre isso?
- É a minha mãe. Sei lá, ela anda falando umas coisas estranhas, me botando um terror, sabe?
- Como assim?
- Por exemplo: há alguns dias, antes de dormir, ela veio com um papo doido aí. Mandou eu dormir logo senão uma tal de Cuca ia vir me pegar. Mas eu nem sei quem é essa Cuca, pô. O que eu fiz pra essa mina querer me pegar? Você me conhece desde que eu nasci, já me viu mexer com alguém?
- Nunca.
- Pois é. Mas o pior veio depois. O papo doido continuou. Minha mãe disse que quando a tal da Cuca viesse, eu ia estar sozinho, porque meu pai tinha ido pra roça e minha mãe passear. Mas tipo, o que meu pai foi fazer na roça?
E mais: como minha mãe foi passear se eu tava vendo ela ali na minha frente? Será que eu sou adotado, cara?
- Sabe a sua vizinha ali da casa amarela? Minha mãe diz que ela tem uma hortinha no fundo do quintal. Planta vários legumes. Será que sua mãe não quis dizer que seu pai deu um pulo por lá?
- Hmmmm. Pode ser. Mas o que será que ele foi fazer lá? VIXE! Será que meu pai tem um caso com a vizinha?
- Como assim, véio?
- Pô, ela deixou bem claro que a minha mãe tinha ido passear. Então ela não é minha mãe. Se meu pai foi na casa da vizinha, vai ver eles dois tão de caso. Ele passou lá, pegou ela e os dois foram passear. É isso, cara. Eu sou
filho da vizinha. Só pode!
- Calma, maninho. Você tá nervoso e não pode tirar conclusões precipitadas.
- Sei lá. Por um lado pode até ser melhor assim, viu? Fiquei sabendo de umas coisas estranhas sobre a minha mãe.
- Tipo o quê?
- Ela me contou um dia desses que pegou um pau e atirou em um gato. Assim, do nada. Puta maldade, meu! Vê se isso é coisa que se faça com o bichano!
- Caramba! Mas por que ela fez isso?
- Pra matar o gato. Pura maldade mesmo. Mas parece que o gato não morreu.
- Ainda bem. Pô, sua mãe é perturbada, cara.
- E sabe a Francisca ali da esquina?
- A Dona Chica? Sei sim.
- Parece que ela tava junto na hora e não fez nada. Só ficou lá, paradona, admirada vendo o gato berrar de dor.
- Putz grila. Esses adultos às vezes fazem cada coisa que não dá pra entender.
- Pois é. Vai ver é até melhor ela não ser minha mãe, né? Ela me contou isso de boa, cantando, sabe? Como se estivesse feliz por ter feito essa selvageria. Um absurdo. E eu percebo também que ela não gosta muito de mim.
Esses dias ela ficou tentando me assustar, fazendo um monte de careta. Eu não achei legal, né. Aí ela começou a falar que ia chamar um boi com cara preta pra me levar embora.
- Nossa, véio. Com certeza ela não é sua mãe. Nunca que uma mãe ia fazer isso com o filho.
- Mas é ruim saber que o casamento deles é essa zona, né? Que meu pai sai com a vizinha e tal. Apesar que eu acho que ele também leva uns chifres, sabe? Um dia ela me contou que lá no bosque do final da rua mora um cara,
que eu imagino que deva ser muito bonitão, porque ela chama ele de 'Anjo'. E ela disse que o tal do Anjo roubou o coração dela. Ela até falou um dia que se fosse a dona da rua, mandava colocar ladrilho em tudo, só pra ele poder
passar desfilando e tal.
- Nossa, que casamento bagunçado esse. Era melhor separar logo.
- É. só sei que tô cansado desses papos doidos dela, sabe? Às vezes ela fala algumas coisas sem sentido nenhum. Ontem mesmo veio me falar que a vizinha cria perereca em gaiola, cara. Vê se pode? Só tem louco nessa rua.
- Ixi, cara. Mas a vizinha não é sua mãe?
- Putz, é mesmo! Tô ferrado de qualquer jeito.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

ímpeto

Vontade de gritar! 10 anos de Ímpeto.




O texto que vc lê abaixo é do meu amigo André "Alemão" Ërl, grande companheiro de banda e de sala de aula. Nós formamos o Ímpeto em 1998 e ele conta a história da banda através das suas memórias. Eu não acrescentaria nada, nem tiraria, porque o bicho escreve bem pra caralho.
Pra quem quiser conhecer o som (?) do Ímpeto, segue o link da última gravação (Canções para novelas globais). ATENÇÃO: SE VOCÊ TEM OUVIDOS SENSÍVEIS, ESTÔMAGO FRACO, MEDO DE ALTURA, PROBLEMAS CARDÍACOS, OTITE, FOTOFOBIA, MEDO DA SUA MÃE, NÃO BAIXE, VOCÊ CORRE O RISCO DE SOFRER AS GRAVES CONSEQUÊNCIAS DE QUEM SE ARRISCA. NÃO RECOMENDADO AO BOM GOSTO.

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Cara, lá se vão 10 anos. Permitir-me-ei usar alguns lugares-comuns aqui: como foi rápido, parece que se passaram 10 meses de Ímpeto. Não, não pretendo resenhar minha própria banda, não sou tão estúpido. Mas deixa eu dizer pra vocês algumas coisas sobre o Ímpeto, que irão soar mais como memórias, relatos de algo que fiz e faço e que julgo legal.
Uma brincadeira de 4 amigos de ETFG, que começou com o bizarro nome de “Screaming in Silence”, em 1997, e que duraria 3 ou 4 ensaios. Depois, como Ímpeto, no início de 1999, o primeiro show (se é que se pode chamar assim) com menos de 10 sons, incluindo alguns covers, no Cantoria, que recebia o 1º Domingão da Brodagem. Isso mesmo, cara-de-pau imensa, em madeira de lei, da nossa parte. Bacuras e Didi gritando, Jander no baixo, Guga Valente baterista e André Erl (ainda sem o Alemão) na guitarra.
Tento não me render ao saudosismo: a experiência no Cantoria ainda mexe muito comigo. Participei diretamente da organização dos “Domingões”, na Liga Hardcore de Goiânia. Tempos de extremismos bobos, típicos da adolescência. Enfim, lembrar de tudo aquilo me emociona de verdade.
Desse extremismo também vinha a proposta estética musical do Ímpeto: antimúsica (acertei a nova grafia?), subverter a estrutura da música. Assim eram feitos os sons.
Muitos shows aqui, também no DF, algumas cidades do interior. Pouca divulgação, pouca importância em estabelecer padrões para o som, e o compromisso apenas com o bem-estar em se fazer música barulhenta. Tosco por opção, por ideal, he, he, he...
Talvez por nascer como um projeto alternativo de seus integrantes (Bacural, Guga e eu tocávamos em outras bandas), o Ímpeto nunca tenha sido a real prioridade, dentro do rock, para seus membros. Isso é um palpite, não é uma verdade. Mesmo em fases onde o som fluía numa facilidade espantosa.
Quando Júlio WCM entrou para as baquetas do Ímpeto, a banda deu um salto de qualidade visível. Compúnhamos músicas novas em todos os ensaios. O grande problema é que estes aconteciam (e acontecem) a cada seis meses. Acredite. E muitos sons legais eram esquecidos. Tocamos inúmeras vezes sem ensaios. Sim, este folclore é verdadeiro. Não é lenda não. Mas o entrosamento entre nós é tão grande, que tocar os sons antigos, de 10 anos atrás, é quase automático.
Eu costumo chamar de “fases” alguns momentos distintos da banda. Eu já estive fora do Ímpeto por mais ou menos um ano. Cheguei a pogar em show do Ímpeto, sem estar na formação. Foi quando Guilherme C(h)oice esteve na guitarra, meu posto na formação original. Dedicava-me exclusivamente ao Kundaline, neste ínterim.
Daniela Canhête, ex-Èlet, esteve conosco. Vi poucas pessoas, em 16 anos de rock, com sua atitude. É alguém que tenho no meu panteão goiano do rock. Ela sabe disso.
Lúcio Didi é nosso Chuck Norris. Não houve, não há e não haverá baterista mais pedreiro que ele. Furando peles constantemente, em ensaios e shows, devido à força com que batia. O cara era 0% de gordura, e levantava caminhão de brita com dois dedos. Uma das pessoas mais sinceras e honestas que eu conheci na vida inteira, nestes 29 anos.
Janderjans Monteiro, o Jander Joaninhas, o cara da flanela. O primeiro baixista do Ímpeto. Cidadão tocantinense, espírito de baiano, contador de “causos”. Passou muito tempo sendo baixista sem o ser! Ha, ha, ha, ha!!! Companheiro das 1ªs brejas, após nos tornarmos “caídos”, ex-straight edgers. Putz...
Nunca ri tanto enquanto Alexandre Senhori WCM esteve no Ímpeto. O cara é uma figura! Espontâneo, nos matava de rir nos ensaios. Virtuoso, inventava suas próprias bases, que nada tinham a ver com os sons. Descobrimos isso e mais uma vez, demos pala. Nino, do Castelo Rá-Tim-Bum.
Vegetarianismo. Eis um mote permanente nos primeiros anos. Éramos todos vegetarianos. Alguns inclusive se rotularam SxE. Fiz isso num curto espaço de tempo, mas fiz. Não usávamos álcool, nem marijuana. Garotos bem-comportados. Nagávamos uma boa picanha maturada, passávamos longe de um cupim gotejando colesterol. Histórias mil de sofrimento por estes ideais, que faziam todo sentido, anos atrás, pra nós da banda. Quantos "X-Quaresma" detonamos? Quantos litros de refrigerecos diversos (Coca-Cola era pra vendidos alienados)? Hoje, apenas Bacural e Júlio continuam se alimentando saudavelmente. Devem ter muito menos colesterol que eu, são bem mais magros, mais ágeis, não ficam bêbados nunca... enfim, COITADOS! Não sabem o que estão perdendo, he, he, he, he... Estou cooptando Júlio pro meu time. Já tenho excelentes resultados.
A primeira demo foi em K-7, tosca. Um ou outro material em coletâneas pelo Brasil afora, e só.
O novo material mescla sons antigos e novos. Vai ser lançada de forma organizada. Pretendemos dar um gás novo ao Ímpeto, tocando mais, ensaiando e compondo mais.
O Ímpeto é assim, existe porque a necessidade de gritar às vezes é muito urgente. Existe porque a amizade ali é forte demais. Existe porque já virou lenda, folclore caricato da atitude moleque hardcore. Existe porque é sincero, ninguém ali faz pose. Existe porque é necessário na vida de seus integrantes atuais: Bacuras, Júlio, Guga e eu. Da minha parte, hardcore até onde der!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

falha

Eu ia pedir desculpas... Mas pra quê, se a culpa não foi minha? Eu até intencionava atualizar o blog todos os dias, como havia prometido. A internet da casa onde fiquei (e que casa... depois falo mais dela) caiu no dia seguinte à minha última utilização. Pergunta se voltou. Voltou nada, fiquei lá todos esses dias sem atualizar. 
Agora estou retornando a Goiânia cheio de alegria pelos dias vividos em Floripa. Que cidade. Que praias. Fiquei num bairro (?) chamado Jurerê Internacional, frescura de minha irmã. Mas que frescura boa, que lugar. Beverly Hills brasileira. Até tirei foto dos carros loucos que vi lá. Mas depois eu falo disso, agora quero só me justificar de não ter estado aqui como prometi, mas foi por força maior, nem foi falta de tempo.
Enfim, amanhã chego a Goiânia, feliz, feliz...
Abraços a todos e feliz ano novo!

sábado, 27 de dezembro de 2008

contodeférias


Bilhar

 

Estoura. O quinze cai na caçapa do canto superior esquerdo. A porta se abre silenciosamente. As bolas espalhadas, sabe que é ímpar e mira a três na caçapa do meio direito. Passo a passo, caminha em direção ao quarto. O Honda na porta indica que ela não está sozinha. O triângulo já se desfez completamente e há o onze e o cinco em médias e oblíquas distâncias das caçapas inferiores. Ainda na cozinha, tira a faca do jogo de churrasco: a mais larga, pra não restar dúvida. Tacada silenciosa, macia e longa. Olha por sobre a mesa, os desenhos estão perfeitos e fáceis. Ouve-se, bem baixo, gemidos e sussurros entredentes. A faca, nas costas, esconde a adrenalina a mil correndo por todos os vasos sanguíneos. O coração bate mais retumbante na tacada da sete, pois que a bola branca está quase encostada nela e a boca que se deseja está no canto oposto. Estranhamente deixa a faca sobre o aparador da sala, enquanto atravessa o ambiente. Ao invés de rumar ao quarto, dá passos laterais em direção ao criado do telefone preto de discar – um mimo de setenta e seis reais “pra dar um charme retrô à sala” – desgraçada. Abre sua gaveta com cuidado. O ranger da madeira pode levantar suspeitas. A sete pára na boca e um silêncio se faz, momentaneamente, na casa, ainda com a gaveta a meia abertura. Nem respira. “Tem alguém aí?”, “Posso jogar agora?”. Nem chega a abrir a porta do quarto (parece nem levantar da cama), erra a oito que estava a um pelo da caçapa do meio esquerdo. De dentro da gaveta, retira o tampo falso e pega a pistola semiautomática. A sete agora é engolida suavemente. Ajeita o taco no vinco dos dedos, fecha um olho a quase noventa graus do corpo com a mesa, visa a cinco, que ainda está no mesmo lugar. Olha com um olho pela fechadura, num ângulo de quase noventa graus. O movimento é ofegante e parece estar perto do clímax. A nove no meio do tapete verde já tem sua morte decretada: caçapa superior direita. Gira a maçaneta com a mão ruim, enquanto a boa empunha a pistola, que entra antes do braço no quarto. Na ré, a treze morre numa tabela magnífica e precisa. Aponta então para o ás, esperto que come sua mulher enquanto ele sai com os amigos para uma sinuquinha. “Ã?” Um tiro preciso na cara do número 1.



Fim da sinuca.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Carla, no volante do Tutu que levou a gente

Íngrid

 

Viajar com família é bom, eu já havia me esquecido, tanto tempo faz que não viajo com ela. Ta certo que não é com todo mundo. Estamos em quatro aqui em Curitiba: eu, Lorens, Carla e Fernanda (essas duas, minhas irmãs). A viagem foi uma loucura. Saímos de Goiânia umas 6 da manhã, paramos de verdade apenas duas vezes de lá até aqui. As outras paradas, xixi e pedágios (como tem pedágio de lá pra cá!) foram rapidíssimas, coisa de cinco minutos cada. Chegamos a Curitiba às 8 da noite e fomos procurar nosso hotel, a Lorenna esqueceu de anotar os dados do hotel de onde ela fez reserva (eheheh).

Achado o hotel, tomamos banho, jantamos uma janta digna de pedreiro e agora estou repassando o dia aqui no Blog, fazendo jus ao gênero surgido em 1999 de fazer um diário aberto.

A viagem foi divertidíssima, essas mulheres são umas figuras. Viemos de lá até aqui distorcendo a língua portuguesa e usando expressões das mais idiotas.

- Ow, esse carro não sobe bem só quando a subida é “íngride”;

- A curva de nível favorece a “declinicidade” da água da chuva, evitando a erosão;

- Lá vai ter “menas” gente do que esperamos;

- Ela não tem “cacique” pra isso;

- Nossa, esse “pedálgio” ficou caro, hein?

- Tava mexendo com “dogras”;

Entre tantas outras que não vou me lembrar agora.

Tomamos três chuvas do cacete, achei que o mundo ia acabar. Achei que a chuva queria bater no carro, tão forte que ela tava. Fez sol em uns pedaços e a Carla, no seu pezinho 33/34 pisava fundo. Chegamos a 160 km/h sem sentir, o carro é bom pra carai. Mas só quando tava seco, porque quando chovia, só via nego rezando, ehehehehe.

Amanhã cedo estamos partindo pra Floripa. Acho que lá vai estar o maior sol. Espero mesmo que esteja, pois essa viagem, além de estar me custando caro, ainda tem que compensar todo esforço e planejamento pra ela. Devemos encontrar no sábado com minha outra irmã, meu cunhado e sobrinhos. Minha prima e meu primo também vão pra Floripa, mas pra ficar em outra casa. Vai ser farra nessas praias, viu.

Amanhã eu volto pra postar mais.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

viagem


Sim, estou de férias. Nada melhor no mundo do que sexo, chocolate, Playstation II e... Férias!
Estou saindo de viagem dia 25 e só devo retornar dia 6 do ano que vem. Vou pra Florianópolis. Nem estou empolgado, imagine.
Vou fazer desse blog o sentido original do gênero: um diário aberto. Quero tirar muitas fotos de onde estarei e tentarei falar um pouco do que verei e do que viverei lá no Sul.
Dá uma olhadinha na praia de lá. Bonitinha, né não?
Abraços aos leitores e leitoras que me acompanham!

crônica

- Advinha?
- Sei lá.
- Não, sério, advinha.
- Po, não sei, fala logo de uma vez.
- Ah, vai, dá um chute.
- Ta: saiu com a Genoveva?
- Não.
- Então com quem?
- Não, não é isso.
- Mas eu não sei do que se trata, será que você pode desembuchar e falar logo? To perdendo a curiosidade!
- Vou trabalhar no sábado!
- ...
- Paia, né?
- Paia é você gerar suspense pra uma coisa tão estupidamente insignificante pra mim!!
- Não, mas vai rolar uma graninha massa.
- Pelo menos, né?
- Chuta quanto?
- Ah, não, de novo não...
- Chuta, vai!
- 477 reais.
- Nããããão! Cinquentão!
- Caramba, você vai trabalhar no sábado pra ganhar “cinquentão”?
- E o melhor você não sabe.
- Quê?
- Você não faz nem idéia?
- Nenhuma.
- Arrisca.
- Cara, arrisca o quê? Não to ganhando nada com isso!
- Um palpite, pelo menos, vai?
- Não sei, você vai ser contratado definitivamente?!?
- Nada disso!!! Vai ter lanche às 10 da manhã!
- Nossa... que bom, hein... assim você não morre de fome...
- Pois é, e o chefe ainda me disse o quê? Ahn?
- Ahn?
- Não vai nem tentar?
- Nem quero, pra ser franco.
- Cara, você não vai acreditar.
- Talvez até acredite, pra encurtar logo o papo.
- Ele falou. Que vai contratar. Mais uma menina. Pra RECEPÇÃO! PIRA?
- Nossa. To chocado.
- Mesmo?
- Mesmo, não vê que estou saltitante? ¬¬
- E além de tudo, sabe o quê?
- O quê, Deoclécio, o quê??? Fala de uma vez!!
- Você vai ficar bege...
- Eu já to roxo de agonia!!
- Vê se pode!
- Verei, se você disser. Mas já adianto que pode.
- Ela é lá de Faina.
- Noooooossa, mas isso é muito relevante.
- Sério, você não está debochando?
- Puta que pariu, Deoclécio, você ta um pé no saco...
- Por quê?
- Advinha.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

cego

Juliane Moore, guiando os cegos pensados por Saramago


Ensaio sobre a cegueira me acordou – novamente – para o Saramago. Eu não poderia dizer se foi boa ou má a adaptação da obra, uma vez que não li esta, especificamente. Mas poderia dizer que Saramago estava ali, na voz de Juliane Moore e na direção de Fernando Meirelles.

Também não senti necessidade de classificar o filme como drama, ou como suspense, ou como humor negro (não, isso não é típico do Saramago), ou... eu não senti, porque o filme é. Simplesmente é.

Enquanto as pessoas ficam cegas, apenas uma, num antro dos que não vêem, enxerga. Essa talvez seja sua pior condenação: ver o que fazem os cegos de então.

As alegorias pululam na tela e nas falas, algumas vezes ditadas por uma espécie de narrador que um dia vai voltar a ver. Mas não, ele é personagem e tem seus melhores momentos de velho quando fica cego junto com a multidão. Dá a entender que a vida na cegueira branca é melhor, pelo menos a sua.

O filme é intenso, é tenso, é teso, é a tez de Saramago pelo olhar publicista de Meirelles. É a tese do perder para ganhar. Filme muito bom de assistir com a caneta e o papel do lado. Os bons versos não se perdem, tal como os bons vinhos ou os bons carros.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

rockNrolla


RockNrolla não inova. É mais um filme de Guy Ritchie. Tem trocentos personagens, alguns idiotas, alguns inteligentes, muito mais homens do que mulheres. Dinheiro, coincidências, armas, drogas. Sério mesmo, não tem nada de novo.

Talvez por isso ele mantenha, portanto, a engenhosidade do diretor de ligar as coisas, como sempre faz, e a gente adora. Fui ao cinema e quero ir outra vez. Depois quero comprar o filme.

O filme segue a trilha de seus dois melhores longas Snatch – porcos e diamantes e Jogos, trapaças e dois canos fumegantes. Um cara deve a outro. O outro quer garantir uma licença pra construir um prédio, já que é isso que tem dado dinheiro em Londres. Utiliza seus contatos políticos para fazê-lo a um russo, um outro é enteado de um deles. Um quadro é roubado. Inicia-se uma pendenga.

E você ri. Porque o filme é muito engraçado. Mas é aquele humor britânico, negro, sofisticado, sarcástico, com apenas o canto da boca.

Não vou falar mais, mas preste atenção à cena de Jhony Quid tocando piano num pub e filosofando sobre um maço de cigarros. A cena tem um texto magnífico. Guy Ritchie tem um texto magnífico.


Desespero, angústia, holocausto, síndrome do pânico, dor na alma, susto, distorção da realidade, falta de auto-aceitação, medo, horror, distúrbio, transtorno, incredulidade, falta de amor próprio, incompreensão, não aceitação da realidade, auto-depreciação, falta de sexo, falta de dinheiro, falta...

Algumas dessas palavras ajudam a compreender o mais famoso quadro do pintor norueguês Edvard Münch, O grito, da última década do século 19. Porém, seria reduzir a beleza dessa pintura a um monte de palavras negativas e que só remetem ao pior do ser humano. Melhor é observarmos o trabalho artístico, aonde ele conseguiu chegar.

Melhor é vermos como a imagem pode ainda ser mais angustiante quando feita num sistema de pintura chamado xilogravura. Nesse processo, o artista encrava na madeira os espaços que ele deseja ficar brancos na tela e deixa os relevos para ser pintados, fazendo assim um “carimbo”. Ele, então, passa tinta nessa matriz, aplica sobre a tela, coloca numa prensa e, aí sim, temos o quadro. No caso da ilustração acima, é uma reprodução muito fiel e triste do Grito de Münch, talvez ainda mais perturbadora do que o próprio desenho original.

Aproveita.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

concretoV

Ando meio quadrado, ultimamente. Retrógrado quase sempre. Moderninho, como nunca. Insatisfeito, tipo todos os dias. Contraditório todas as noites. E concreto, como em 98.





terça-feira, 14 de outubro de 2008

domingo, 12 de outubro de 2008

concretoIII



contodooutro

A insistentes pedidos, sob pena de não mais visitarem meu blog...

Passeio noturno – Parte II

Rubem Fonseca

Eu ia para casa quando um carro encostou no meu, buzinando insistentemente. Uma mulher dirigia, abaixei os vidros do carro para entender o que ela dizia. Uma lufada de ar quente entrou com o som da voz dela: Não está mais conhecendo os outros?
Eu nunca tinha visto aquela mulher. Sorri polidamente. Outros carros buzinaram atrás dos nossos. A avenida Atlântica, às sete horas da noite, é muito movimentada.
A mulher, movendo-se no banco do seu carro, colocou o braço direito para fora e disse, olha um presentinho para você.
Estiquei meu braço e ela colocou um papel na minha mão. Depois arrancou com o carro, dando uma gargalhada.
Guardei o papel no bolso. Chegando em casa, fui ver o que estava escrito. Ângela, 287-3594.
À noite, saí, como sempre faço.
No dia seguinte telefonei. Uma mulher atendeu. Perguntei se Ângela estava. Não estava. Havia ido à aula. Pela voz, via-se que devia ser a empregada. Perguntei se Ângela era estudante. Ela é artista, respondeu a mulher.
Liguei mais tarde. Ângela atendeu.
Sou aquele cara do Jaguar preto, eu disse.
Você sabe que eu não consegui identificar o seu carro?
Apanho você às nove horas para jantarmos, eu disse.
Espera aí, calma. O que foi que você pensou de mim?
Nada.
Eu laço você na rua e você não pensou nada?
Não. Qual é o seu endereço?
Ela morava na Lagoa, na curva do Cantagalo. Um bom lugar.
Estava na porta me esperando.
Perguntei onde queria jantar. Ângela respondeu que em qualquer restaurante, desde que fosse fino. Ela estava muito diferente. Usava uma maquiagem pesada, que tornava o seu rosto mais experiente, menos humano.
Quando telefonei da primeira vez disseram que você tinha ido à aula. Aula de quê?, eu disse.
Impostação de voz.
Tenho uma filha que também estuda impostação de voz. Você é atriz, não é?
Sou. De cinema.
Eu gosto muito de cinema. Quais foram os filmes que você fez?
Só fiz um, que está agora em fase de montagem. O nome é meio bobo, As virgens desvairadas, não é um filme muito bom, mas estou começando, posso esperar, tenho só vinte anos. Na semi-escuridão do carro ela parecia ter vinte e cinco.
Parei o carro na Bartolomeu Mitre e fomos andando a pé na direção do restaurante Mário, na rua Ataulfo de Paiva.
Fica muito cheio em frente ao restaurante, eu disse.
O porteiro guarda o carro, você não sabia?, ela disse.
Sei até demais. Uma vez ele amassou o meu.
Quando entramos, Ângela lançou um olhar desdenhoso sobre as pessoas que estavam no restaurante. Eu nunca havia ido àquele lugar. Procurei ver algum conhecido. Era cedo e havia poucas pessoas. Numa mesa um homem de meia-idade com um rapaz e uma moça. Apenas três noutras mesas estavam ocupadas, com casais entretidos em suas conversas. Ninguém me conhecia.
Ângela pediu um martíni.
Você não bebe?, Ângela perguntou.
Às vezes.
Agora diga, falando sério, você não pensou nada mesmo, quando eu te passei o bilhete?
Não. Mas se você quer, eu penso agora, eu disse.
Pensa, Ângela disse.
Existem duas hipóteses. A primeira é que você me viu no carro e se interessou pelo meu perfil. Você é uma mulher agressiva, impulsiva e decidiu me conhecer. Uma coisa instintiva. Apanhou um pedaço de papel arrancado de um caderno e escreveu rapidamente o nome e o telefone. Aliás quase não deu para eu decifrar o nome que você escreveu.
E a segunda hipótese?
Que você é uma puta e sai com uma bolsa cheia de pedaços de papel escritos com o seu nome e o telefone. Cada vez que você encontra um sujeito num carro grande, com cara de rico e idiota, você dá o número para ele. Para cada vinte papelinhos distribuídos, uns dez telefonam para você.
E qual a hipótese que você escolhe?, Ângela disse.
A segunda. Que você é uma puta, eu disse.
Ângela ficou bebendo o martíni como se não tivesse ouvido o que eu havia dito. Bebei minha água mineral. Ela olhou para mim, querendo demonstrar sua superioridade, levantando a sobrancelha – era má atriz, via-se que estava perturbada – e disse: você mesmo reconheceu que era um bilhete escrito às pressas dentro do carro, quase ilegível.
Uma puta inteligente prepararia todos os bilhetinhos em casa, dessa maneira, antes de sair, para enganar os seus fregueses, eu disse.
E se eu jurasse a você que a primeira hipótese é a verdadeira. Você acreditaria?
Não, ou melhor, não me interessa, eu disse.
Como não interessa?
Ela estava intrigada e não sabia o que fazer. Queria que eu dissesse algo que a ajudasse a tomar uma decisão.
Simplesmente não interessa. Vamos jantar, eu disse.
Com um gesto chamei o maître. Escolhemos a comida.
Ângela tomou mais dois martínis.
Nunca fui tão humilhada em minha vida. A voz de Ângela soava ligeiramente pastosa.
Eu se fosse você não bebia mais, para poder ficar em condições de fugir de mim, na hora em que for preciso, eu disse.
Eu não quero fugir de você, disse Ângela esvaziando de um gole o que restava na taça. Quero outro.
Aquela situação, eu e ela dentro do restaurante, me aborrecia. Depois ia ser bom. Mas conversar com Ângela não significava mais nada para mim, naquele momento interlocutório.
O que é que você faz?
Controlo a distribuição de tóxicos na zona sul, eu disse.
Isso é verdade?
Você não viu o meu carro?
Você pode ser um industrial.
Escolhe a sua hipótese. Eu escolhi a minha, eu disse.
Industrial.
Errou. Traficante. E não estou gostando desse facho de luz sobre a minha cabeça. Me lembra as vezes em que fui preso.
Não acredito numa só palavra do que você diz.
Foi a minha vez de fazer uma pausa.
Você tem razão. É tudo mentira. Olha bem para o meu rosto. Vê se você consegue descobrir alguma coisa, eu disse.
Ângela tocou de leve meu queixo, puxando meu rosto para o raio de luz que descia do teto e me olhou intensamente.
Não vejo nada. Teu rosto parece o retrato de alguém fazendo uma pose, um retrato antigo, de um desconhecido, disse Ângela.
Ela também parecia o retrato antigo de um desconhecido.
Olhei o relógio.
Vamos embora?, eu disse.
Entramos no carro.
Às vezes a gente pensa que uma coisa vai dar certo e dá errado, disse Ângela.
O azar de um é a sorte do outro, eu disse.
A lua punha na lagoa uma esteira prateada que acompanhava o carro. Quando eu era menino e viajava de noite a lua sempre me acompanhava, varando as nuvens, por mais que o carro corresse.
Vou deixar você um pouco antes da sua casa, eu disse.
Por quê?
Sou casado. O irmão da minha mulher mora no teu edifício.
Não é aquele que fica na curva? Não gostaria que ele me visse. Ele conhece o meu carro. Não há outro igual no Rio.
A gente não vai se ver mais?, Ângela perguntou.
Acho difícil.
Todos os homens se apaixonam por mim.
Acredito.
E você não é lá essas grandes coisas. O teu carro é melhor do que você, disse Ângela.
Um completa o outro, eu disse.
Ela saltou. Foi andando pela calçada, lentamente, fácil demais, e ainda por cima mulher, mas eu tinha que ir logo para casa, já estava ficando tarde.
Apaguei as luzes e acelerei o carro. Tinha que bater e passar por cima. Não podia correr o risco de deixá-la viva. Ela sabia muita coisa a meu respeito, era a única pessoa que havia visto o meu rosto, entre todas as outras. E conhecia também o meu carro. Mas qual era o problema? Ninguém havia escapado.
Bati em Ângela com o lado esquerdo do pára-lama, jogando o seu corpo um pouco adiante, e passei, primeiro com a roda da frente – e senti o som surdo da frágil estrutura do corpo se esmigalhando – e logo atropelei com a roda traseira, um golpe de misericórdia, pois ela já estava liquidada, apenas talvez ainda sentisse um distante resto de dor e perplexidade.
Quando cheguei em casa minha mulher estava vendo televisão, um filme colorido, dublado.
Hoje você demorou mais. Estava muito nervoso?, ela disse.
Estava. Mas já passou. Agora vou dormir. Amanhã vou ter um dia terrível na companhia.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

VotarII

Meu programa de tevê predileto passa duas vezes por dia, mas só de dois em dois anos: horário eleitoral gratuito. Divirto-me com as figuras que, entre propostas redundantes, demagógicas e estapafúrdias, alegram esses cinqüenta minutos.
Parece que a hierarquia é também obedecida com o nível das piadas. Do candidato a presidente da República ao candidato a vereador há um caminho longo que é determinado pela quase completa falta de bom senso.
Os candidatos, neste pleito, concorrem à prefeitura e ao cargo de vereador. Prevalece o saco de risada nos programas dos vereadores.
As propostas dos candidatos goianos são mirabolantes. Vão desde a luta pela abertura de escolas de cabeleireiro de uma candidata na periferia (precisando de óleo de peroba, né não?) até o discurso non sense de um cara com nome Ganexa. Ganexa? Puta merda, não deixa! Vão de um professor (como os há) com cara de peixe morto, até um “maluco doido na câmara”. Será que resolve colocar raulzistas na câmara? Penso.
Minha memória política não é das piores. Lembro-me bem em quem votei nas últimas eleições. Fica fácil lembrar quando se vota nulo para quase todos os cargos. E percebo que nessas eleições vai ser difícil, porque o páreo está duro. As propostas são muito semelhantes. Antes os candidatos ofereciam bibelôs e coisinhas sem muita importância; hoje, mais descaradamente do que nunca, oferecem dinheiro através das bolsas criadas legalmente nos últimos anos.
Aquele discurso repetido à exaustão “deve-se dar o peixe, mas, além disso, deve-se ensinar a pescar” não tem sido cumprido. Lembro-me de um prefeito que adorava flores ter dito isso. Agora há outro candidato ao mesmo cargo que também repete o dito. E nenhum programa sério de pescaria nos estados. Só o Lula criou o “Ministério da Pesca”.
É inegável que são homens de coragem. Com uma cara-de-pau dessas, é muita pachorra aparecer/reaparecer para pedir voto a alguém. Aqueles que aqui foram cassados sofrem processos administrativos (entre outros) ou votaram contra os interesses do povo, são comediantes de início de carreira perto desses arautos da piada mal contada que vemos Brasil afora, como Maluf concorrendo à prefeitura de São Paulo mais uma vez. “Rouba, mas faz”, lembram?
Surpreendi-me com um jornal de circulação regional divulgar os nomes e as fotos dos vereadores que derrubaram o veto do prefeito aos 13º, 14º e 15º salários. O jornal divulgou inclusive quem se absteve da votação. Impressiona-me saber que os caras fizeram essa votação há pouco, em plena época de campanha política. O pior? A maioria é candidato à reeleição. (abaixo, foto dos FDPs)
A piada está no fato de não irmos atrás da vida desses homens públicos e depois reclamarmos de suas atitudes como políticos. É gozado cobrar algo de um candidato que nos aperta a mão olhando nos olhos e depois ver que aquilo era só aquele exato momento. Lembro-me de rir de um candidato daqui que falava dos candidatos que só iam à feira pra pedir votos, que só quem entende o feirante é o próprio feirante. Ri, porque não é o fato de eu ir a um lugar que determinará as necessidades daquele lugar. Mas o figura não está de todo errado se considerarmos que os políticos são nossos melhores amigos na hora de elegê-los, porém nossos maiores algozes quando tiram da boca de nosso filho o alimento com as benesses que fornecem para si e para os seus.
Será que ainda vamos rir dessa patuscada que se mostra diante de nós ou os palhaços já SOMOS nós? Quando penso nisso, fico completamente sem graça.

Votar



Esses são os queridíssimos políticos que nós temos aqui na roça. Não que na metrópole seja diferente, também lá há políticos desgraçados. (Tenho a impressão de que político desgraçado é um pleonasmo, como "oco por dentro" ou "hemorragia de sangue") Esses caras aqui votaram pelo 13º, 14º e 15º salários, derrubando o veto do prefeito. Sabe o que isso significa? Que as pessoas (eu "me incluo fora dessa", não votei em nenhum deles) estão prestes a reeleger quem só pensa em seu próprio benefício, ou no de seus familiares. Já reparou em quantas pessoas ao seu redor vão votar em alguém que lhes possa ajudar em algo? Arrumando algum bico, emprego ou favores? Muita gente! Sabemos que voto nulo não é mais contado; sabemos que voto branco vai para quem ta ganhando; sabemos que votar no Tião Macalé como protesto acaba por elegê-lo. O que fazer então? Votar nos mais sem graça e inexpressivos políticos. Assim a gente não põe no poder nem ladrões nem malucos, apenas pessoas inexpressivas. Quem sabe com elas lá nós retomemos nossa vontade de gritar?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

contoVI

Volta pelo bairro (mau menino)

   Era domingo. Dia de churrasco. Dia de encontro da família. Ele era contra. Mesmo porque, estômago fraco, difícil alimento. Saiu às ruas caminhando esquecido de casa, que reciprocamente esquecida dele. Pensou na encruzilhada. Pensou na primeira que viu. E foi lá que virou. Sem rumo, errava pelos embrenhos de seu bairro mediano. Encontrou o carro branco que prometera no seu primeiro dia de raiva adolescente. (num certo dia, ele se cansou de todas as contravenções que vivia dentro de sua casa, de difícil convivência com sua habitual estranheza, e decidiu escolher uma coisa pra fazer quando estivesse puto, pra ver se conseguia sair do lugar comum que permeava sua vida, e então decidiu quebrar o vidro de um carro branco quando encontrasse este, simplesmente pra cometer uma delinqüência maior que a contradição de sua vida, sem pensar no que poderia acontecer depois disso) Quebrou o vidro rápida e discretamente com uma telha da construção da própria casa de quem o carro parecia ser pertence. O alarme soou, ele saiu caminhando um pouco aliviado. O velho zelador do prédio em frente viu tudo e pensou esclerosado que o menino estaria louco. Isso tudo depende muito de referencial.

Encontrou a menina da rua de cima. Sentiu um ódio incontrolável por ela, já que trajava um short curto, com as belas pernas torno-bronzeadas e uma barriga muito bonita pra um domingo de cerveja e comidas pesadas. Não teve dúvida em estuprá-la. Mas pensou que o sol daquela quente tarde não o deixaria à vontade. Ela olhou-o de cima a baixo, aquele semblante não era o usual do menino tímido da rua debaixo. Com o punho direito fechado, ele deu um soco seco em seu seio esquerdo, deixando-a sem ar e dolorosamente assustada; ele passou direto e a amiga que estava ao lado dela, por causa do chofre, não soube o que fazer, pois que aterrorizada.

Em sua caminhada insurrecta, os níveis de adrenalina do garoto deveriam estar muito altos, já que não era muito comum ele sentir aventuras correndo pelo seu ignóbil sangue amaldiçoado. Mas não estava satisfeito ainda. Precisava ver quanto tempo conseguiria ficar imune. Subiu a rua adjacente à que estava. Passou diante de uma casa, não tinha carro, era um varal e uma mulher estendendo ou retirando as roupas de lá. Foi-se à sua testa um pedaço de tijolo que abriu o supercílio antes de ela cair desacordada no chão. Um bêbado logo adiante achou estranho aquele movimento e chegou a murmurar qualquer coisa pra ele. Curiosamente o bêbado foi poupado, já que os atos cometidos eram covardes. Mas não eram covardes porque o menino era covarde. Eram covardes porque assim ficava mais fácil fazer mais coisas sem enfrentar problemas. Só um tapa na cabeça do ébrio sentado adiante.

Já estava perto da esquina e o boteco que nela se encontrava estava abrindo as portas exatamente a uma e meia. O dono do bar estava só e tinha colocado apenas duas mesas lá fora. Quando de costas assentou a terceira mesa, recebeu uma cadeirada no dorso que o fez prostrar-se, não dando tempo sequer de saber o que estava acontecendo; eis que recebeu uma segunda cadeirada que pegou metade na nuca, metade nas costas, colocando o homem no chão com um grito oco de dor. Ao acabar o serviço, a fúria ainda pisou a mão do comerciante estendido. Já não era o bastante para tanta sedição?

Ele ainda derrubou um menino de bicicleta com um chute, bateu na cara de uma velha que reclamou o machucado da criança, deu um soco no nariz de um amigo de infância que com ele ingenuamente topou, chutou a boca de um cachorro de rua que dormia na sombra de uma árvore, aterrorizou crianças jogando lâmpadas fluorescentes, encontradas num lixo, dentro da casa delas, até que concluíra o quarteirão, dando de frente com uma súcia de populares com pedaços de pau, pedras e muita revolta nos olhos de sangue.